Canaviais conquistam o Oeste paulista

Há menos de duas décadas a região de Araçatuba, no Oeste Paulista, possuía a maior concentração de cabeças de Nelore por hectare de pasto. Hoje, embora em muitos locais a moeda corrente ainda seja a arroba de boi, a região passa pela maior transformação de sua jovem história de pouco mais de 50 anos. Basta levantar os olhos pelas belas planícies para perceber a extensão da mudança. Como numa vingança da natureza os canaviais estão tomando o lugar dos pastos, algozes implacáveis dos cafezais em passado pouco distante.

A exemplo dos cafezais que foram empurrados para o Norte do Paraná, a geografia das brachiarias decumbens está mudando. O pasto está sendo empurrado para o Mato Grosso do Sul, que faz divisa com o Oeste Paulista. Em seu lugar, numa distância entre uma e outra de 40 quilômetros em média, usinas modernas esmagam toneladas de cana de alta produtividade. Enquanto estas trabalham, boa parte dos pecuaristas usa o método de plantio direto na palha para transformar um pedaço de seu pasto em lavouras de cana, atraídos por ofertas rentáveis de empresas de grupos produtores que têm planos ou já estão construindo suas plantas.

Hoje, vinte usinas já funcionam em toda a região, embora o número total da União das Destilarias do Oeste Paulista – Udop seja de 28 unidades produtoras. Este número é maior porque há muitas usinas relativamente próximas de Araçatuba que resolveram se associar a Udop para, de alguma forma, ser representadas em suas reivindicações. Desta forma, usinas até mesmo da região da Alta Paulista e de São José do Rio Preto fazem hoje parte da Udop e ajudam a dar força política à instituição.

“É bom que tenhamos força mesmo, porque aqui funcionamos como um braço político da União da Agroindústria Canavieira – Unica”, diz o presidente da Udop, Luiz Guilherme Zancaner.

Zancaner é um exemplo de pecuarista transformado em empresário do setor sucroalcooleiro. Ainda mantém fazendas de gado, principalmente no Mato Grosso do Sul, mas é o principal acionista do Grupo Unialco, que administra as usinas Unialco, de Guararapes, a 50 km de Araçatuba e a Álcoolvale, em Aparecida do Taboado (MS).

É também exemplo de jovem empreendedor. Ao lado de outros jovens competentes e pragmáticos, como Newton Salim Soares, superintendente da Equipav, “importado” da região de Sertãozinho para Promissão, Zancaner é autor de ações ousadas. A última e fundamental para o crescimento do setor, acaba de ser inaugurada em Araçatuba: um terminal construído pela Unialco em parceria com a Sucden francesa e empresa Aralco, capaz de escoar a maior parte de toda a produção da região.

Por iniciativas como esta Zancaner não hesita em afirmar que a região de Araçatuba subirá duas posições no ranking nacional em dez anos, ao fim dos quais surgirá como a segunda região do estado em cana. “Terá maior produção e maior produtividade e ainda teremos o trio ferrovia, rodovia e hidrovia funcionando perfeitamente e escoando toda essa produção”, comemora, antecipadamente.

Terminal deve escoar 60% da produção de toda a região

Segundo mais moderno terminal açucareiro do País, atrás apenas do Pasa, de Paranaguá, o Terminal Araçatuba Logística – Atalogística está pronto e já começou a servir as empresas sucroalcooleiras da região.

Galpão de funções totalmente automatizadas, o terminal tem capacidade estática para 75 mil toneladas. Sua logística é completa, com link entre rodovia, ferrovia e com a hidrovia do rio Tietê.

“Temos o compromisso da Ferrovia NovoOeste de, já em abril, escoar para Santos 3.500 toneladas de açúcar”, diz Luiz Guilherme Zancaner, da Udop e presidente da Unialco, uma das empresas que, juntamente com a francesa Sucden e a Aralco, bancaram os custos do terminal orçado em cerca de R$ 10 milhões, dos quais 80% foram financiados pelos Bancos Nacional de Desenvolvimento Social – BNDES.

A partir de maio, a ferrovia NovoOeste garante que escoará 10 mil toneladas, o que equivale a 60% de toda a safra. No porto, o açúcar ficará no terminal da Cosan e da própria Sucden até ser embarcado. Zancaner informa ainda que os empresários da região vão manter estoque VHP em Araçatuba também, para atender o mercado interno.

A rapidez de operação de carga e descarga impressiona. Um caminhão é totalmente descarregado ou carregado com 30 toneladas em apenas 8 minutos. “Tenho trinta anos de setor e nunca vi nada igual”, compara o agrônomo Antonio César Salibe, que desempenha as funções de secretário-executivo da Udop. “A carreta chega, é presa e a carga toda desce em minutos… É um negócio de primeiro mundo”, elogia.

A economia possibilitada pelo terminal Atalogística é também fundamental. No transporte via caminhão o custo varia entre R$ 50 e R$ 60 por tonelada. No trem, esse custo cai para R$ 38 a 40 por tonelada. No final, tirando os valores pagos pelo desembarque e estadia em Santos, o custo final ainda é entre 20% e 30% mais barato do que levando a carga por rodovia.

Guilherme Zancaner não esconde certa apreensão em relação à capacidade de escoamento do açúcar por via férrea. “O que precisamos agora e é básico, é ter garantia de escoamento total por parte da ferrovia. Vamos atender usinas importantes, como a Analco, Floralcool, Central Álcool de Lucélia e a Uniálcool e isto implica em grande volume de carga, que deve chegar perto de 50% da safra da região. Nossa expectativa é que a NovoOeste faça os investimentos necessários em vagões e escoe todo o produto”.

Os investidores estão otimistas. Tanto que planejam construir um galpão semelhante ao primeiro para entrar em operação já em 2004 e construir, em seguida, todo o aparato para armazenagem e transporte de álcool.

Na margem da Rondon, moderna Equipav mostra que também é pioneira

Seria coincidência o fato da moderna Usina Equipav estar situada ao lado da rodovia Marechal Rondon, em Lins? Quem conhece a empresa, garante que não. Assim como o marechal, a Equipav é pioneira – foi a primeira destilaria do Proálcool na região – e deve moer nesta safra 2,9 milhões de toneladas de cana.

O superintendente da Equipav, Newton Salim Soares, atribui o sucesso da empresa e do próprio setor na região a posição geográfica privilegiada e às terras de acesso e concorrência menores.

“Ao contrário da região de Sertãozinho, por aqui as usinas mais próximas estão há mais de 40 km”, diz Newton Soares. Ele acrescenta que a boa malha viária da região, que inclui as rodovias Marechal Rondon e Transbrasiliana, auxiliam na recepção dos produtos e no escoamento.

Newton lembra que a Equipav já começou grande, com escala de produção e gestão profissionalizada. A empresa foi a primeira do setor a receber certificação ISO 9000 de ponta a ponta.

Equipamentos novos chegando na usina, qualidade e segurança atestam o que Newton diz. “Fazemos o melhor, grande e com qualidade”, diz, sem demonstrar orgulho. Uma equipe de jovens executivos tem conseguido catapultar a Equipav ao alto do pódio na região. Nesta safra, a empresa estará praticamente dobrando sua produção.

A Equipav faz parte de um grupo de outras empresas especializadas em serviços variados, da construção civil ao fornecimento de concreto, coleta de lixo e concessão de rodovias. A holding está sediada em Campinas (SP).

A maior planta de cogeração de energia do setor, uma termoelétrica com capacidade instalada de 52 MW, entrou em operação na Equipav. O investimento possibilitou à empresa receber qualificação para vender créditos de carbono.

Todo o excedente de energia – algo em torno de 48 MW – será comercializado pelos próximos dez anos com Eletropaulo. O contrato já está assinado. Para se habilitar na cogeração a Equipav construiu 10 km de linhão da usina até a subestação elevatória em Lins, que foi construída dentro da própria CPFL.

O projeto de cogeração custou R$ 47 milhões – dos quais 80%, isto é, R$ 31 milhões – foram financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social – BNDES.

Na área industrial, a Equipav está comprando novo terno de moenda, para operar em 2005. Newton Soares informa que a empresa é “bastante estruturada”. Aqui, diz, “trabalhamos com os dois pés no chão”.

Dos 2,9 milhões de toneladas de cana que devem ser moídos este ano, 2,4 milhões são próprias. “Mas estamos abertos a iniciativas de plantadores da região que sejam fornecedores”, diz Newton. Conta que espera dobrar o número de cana terceirizada e chegar a 1 milhões de toneladas de cana fornecida por terceiros.

A Equipav tem programa varietal próprio, desenvolvido em parceria estrutural com a Copersucar e a Ufscar. “Recebemos os clones, testamos aqui, multiplicamos e distribuímos para os produtores”, explica Newton Soares.

Ademar Gottardi, 77 anos, um dos 8 que abriram o caminho do desenvolvimento

Pecuarista e fornecedor de cana em Araçatuba, Ademar Gottardi, 77 completados em 31 de março, olha o caminhão inclinado em ângulo de 45 graus descarregando açúcar no terminal Atalogística de Araçatuba e, sincero, não contém o entusiasmo:

– Não sabia que as usinas de açúcar e álcool tinham crescido tanto em Araçatuba.

A expressão de Gottardi revela que ele também desconhece um fato importante, o de que ele e alguns poucos corajosos são, provavelmente, as pessoas responsáveis pelo crescimento do setor sucroalcooleiro na região.

Afinal, foi Ademar Gottardi e outros 6 pecuaristas corajosos da região de Araçatuba que, em 1978, entraram no entusiasmo do também pecuarista Mário Dias Varella para fundar a Destilaria Alcomira, em Mirandópolis, cidade a 70 km de Araçatuba.

É ele quem conta as dificuldades daquele tempo:

– Recebemos incentivos de 80% do Proálcool, mas o dinheiro foi todo garantido com bens particulares dos 8 sócios. Entramos com 20%, fizemos até uma boa safra inicial, mas encontramos uma sucuri no fim do túnel. Essa sucuri é o exigível a longo prazo. Não tínhamos caminhões, por exemplo, e precisávamos de pelo menos 15 deles.

-Ninguém dos 8 tinha experiência e você sabe, em qualquer negócio que você entra na vida você fica 5 anos levando chumbo. Imagine então se você entra inocente no negócio? Naquela época, já existia a Aralco, em Araçatuba, mas tínhamos pouco contato.

– Para nós foi difícil passar de pecuarista para industrial. O pecuarista não está acostumado com o périplo Brasília, Rio e São Paulo. Várias vezes fomos conversar com ministros, pedir apoio, sempre com poucos resultados.

– Além disso, vivíamos em Piracicaba e em Sertãozinho, aprendendo sobre as manhas do setor. Corríamos atrás, afinal era nosso dinheiro que tava rodando…

– Foram cinco anos sem dormir. Com bois, mesmo tendo muitos animais, você toca o negócio, mas na indústria os volumes são todos altos. São seiscentos bóias-frias, duzentos empregados fixos e empreiteiros. No boi, não, você emprega dois, três peões.

– Quantas vezes achamos que tínhamos trocado o certo pelo incerto. Com o que ganhávamos, dava para viver, porque comíamos as unhas. Levávamos vida simples. Ficamos quase 10 anos com a Alcomira. A usina chegou a moer em seu melhor momento, 1.1 milhão de toneladas de cana. Aí, achamos melhor parar e a vendemos para o Jorge Maluly Neto, hoje prefeito de Araçatuba.

– O fato é que nós não merecíamos entrar naquilo, enfrentando a Petrobras…

– Agora sim, como fornecedor estou satisfeito. As usinas estão querendo comprar minha cana e vêm buscar até mesmo a 60 km de distância. Temos quatro usinas perto e se uma delas falhar, a outra entra no circuito e compra a cana. Tenho plantado hoje 440 hectares de cana e vou plantar mais 200 hectares.

No início da entrevista, talvez em razão do aperto pelo qual passou com a Alcomira, seo Ademar parecia frustrado com o setor sucroalcooleiro. No final, depois de andar pela região e ver de perto o desenvolvimento do setor é lembrado que tudo isso está sendo possível porque pioneiros como ele tiveram a coragem de iniciar o trabalho. Talvez por modéstia, seo Ademar Gottardi não faz qualquer comentário. Mas seu rosto se ilumina num sorriso.

Oeste Paulista é o novo Eldorado da cana

Faça as contas: a região Oeste de São Paulo possui disponíveis hoje 6,9 milhões de hectares de terra. Boa parte deles está destinada a pecuária e outro tanto é virgem. Se você separar apenas 30% de toda essa terra para a cana, vai ter cana em 2 milhões de hectares que, multiplicadas pelas 80 toneladas/ha em média de 4 cortes, resulta em 160 milhões de toneladas de cana. Isto é quase o que o estado de São Paulo moeu esse ano (190 milhões de toneladas).

O autor dessa matemática simples voltada a provar que a região oeste paulista tem muita terra e pastagem disponível é Antonio César Salibe, agrônomo e secretário-executivo da Udop.

Com a conta, Salibe afirma que a região não tem espaço para abrigar apenas mais as 6 a 8 usinas que estão sendo construídas ou reativadas na região, mas até o triplo deste número.

Os grandes grupos produtores – e mesmo os pequenos que desejam reinvestir seu lucro – parecem ter reconhecido que o Oeste paulista (e num futuro próximo o Mato Grosso do Sul) é o novo Eldorado para a expansão da fronteira sucroalcooleira.

“A região tem mesmo potencial para produzir 50 milhões de toneladas de cana”, afirma Luiz Guilherme Zancaner. Várias usinas estão sendo construídas ou já com a planta aprovada. A Clealcool vai construir uma nova usina. A Petribu, nordestina, trabalha uma planta em Sebastianópolis. A Alcoeste vai construir nova usina em Ouroeste e a Pioneiros vai levantar a sua em Ilha Solteira.

Mais: a usina Vertente começou a ser construída em abril em Guaraci. No próximo ano a Gantus, do Grupo Jorge Toledo, inaugura a sua fábrica e a Decasa recomeça a funcionar em Presidente Wenceslau, implementadas pelo grupo nordestino Olival Tenório.

A lista de novas plantas sequer começou: em Penápolis, tem Everest, em Santa Rita e a Alta Alegre trabalha desde o ano passado produzindo melaço para a Aji no Moto. A usina Moreno, de Monte Aprazível começou a funcionar no ano passado, a exemplo da Alta Paulista (antiga Vale Verde).

O Grupo J. Pessoa, que já tinha a Benalcool funcionando na região, a partir desta safra adiciona a moagem da Sanagro, de Icem. O fato de ser uma das regiões mais promissoras do estado e do país e de ter grande área a explorar levaram os executivos do grupo José Pessoa a decidir por investir na região de Araçatuba, explica o diretor administrativo do Grupo J. Pessoa, Osmair Barrichello. “O rendimento da região de Araçatuba hoje está no nível de Ribeirão Preto”, justifica.

Na esteira do sucesso da região de Araçatuba, dezenas de empresas estão fazendo grandes negócios. A Dedini, por exemplo, colocou sua experiência à disposição dos empresários locais e acaba de fechar contrato de US$ 20 milhões com a Aralco para fornecimento de equipamentos da fábrica de cerveja que está sendo construída.

A região atendida pela Udop abrigará ainda o maior difusor de cana do mundo. Está sendo instalado pela empresa Santin na empresa açúcar Guarani, unidade Cruz Alta, de Olímpia (veja matéria na página 82). O equipamento é desenhado para processar até 15 mil tons/dia. Máquinas automatizados permitem perfeita combinação com equipamentos existentes na área de recepção e preparo da cana. A empresa Branco Peres, de Adamantina, adquiriu um vácuo contínuo, também da Santin.

A Fertron também escolheu o Oeste Paulista para dar continuidade ao trabalho de expansão da empresa no mercado nacional. Líder em automação de açúcar e álcool, a empresa inaugura este ano uma filial em Araçatuba.

Motorista sai da Petribu para Araçatuba

A incursão de grupos nordestinos em negócios pelo Oeste paulista pode ser medida numa simples conversa com um motorista de carreta. Adriano da Silva, 25 anos, da empresa pernambucana MHB Transportes é um dos 18 caminhoneiros que vieram do Nordeste logo após o final da safra para ajudar na safra Centro-Sul. No Nordeste, ele trabalhou nas safras das usinas Petribu, São josé, Trapiche e Salgado. Nesta, vai trabalhar para a Sucden, Aralco e Unialco. Casado, Adriano não volta antes de setembro para Olinda, sua terra. “Preciso trabalhar, fazer o quê?”, resigna-se.

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