Câmbio aumenta “rombo” na Petrobras

Se a desvalorização do real em curso vai melhorar, caso bem conduzida, a competitividade da combalida indústria brasileira, ela pode também resultar em prejuízo considerável para a principal empresa do país, a Petrobras. Desde o fim de 2010, a empresa estatal vem registrando perdas seguidas com a comercialização de gasolina, diesel e gás liquefeito de petróleo (GLP) no mercado interno, em virtude da política de contenção dos preços dos combustíveis executada pelo governo com o objetivo de controlar a inflação.

A indústria de petróleo é dolarizada e vinculada ao “brent” – o óleo comercializado na bolsa de Londres. Com a desvalorização da moeda nacional, as importações de petróleo e derivados feitas pela Petrobras ficarão mais caras em reais. As refinarias brasileiras trabalham com uma mistura, em média, de 20% de petróleo importado e 80% de nacional, que é, em termos gerais, mais pesado. Ao mesmo tempo, as refinarias não têm capacidade de atender a demanda interna por derivados de petróleo, principalmente óleo diesel, gasolina e GLP. Por isso, a Petrobras precisa importar petróleo bruto e seus derivados.

Os preços de refinaria da gasolina e do óleo diesel são definidos pela Petrobras por meio de um sistema que simula o custo de importação dos produtos por terceiros, em uma perspectiva de médio e longo prazo. A lógica é manter uma paridade dos preços internos e dos preços internacionais, de tal forma que a empresa não tenha ganhos excessivos e nem perdas ao longo do tempo.

Um gráfico feito pela própria Petrobras – e que foi incluído no relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre as contas do governo da presidente Dilma Rousseff relativas a 2012 – apresenta a evolução dos preços médios de realização da Petrobras com a venda de derivados no país e dos preços médios de realização do golfo americano, região escolhida em virtude de sua proximidade com o Brasil.

O gráfico, reproduzido abaixo, mostra períodos em que a Petrobras obteve ganhos no mercado interno, em comparação com os preços praticados no mercado externo, e também perdas. O que se verifica é que desde o fim de 2010, começo de 2011, até o fim de 2012, os prejuízos foram expressivos. Eles continuaram no início deste ano, embora em menor intensidade em virtude do aumento dos combustíveis anunciado em janeiro.

Quando está vendendo os combustíveis a preços inferiores aos internacionais, a Petrobras subsidia o consumidor brasileiro. Essa situação poderá se agravar com a desvalorização do real. “O fator que mais faz aumentar o prejuízo da Petrobras é o câmbio”, observa Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). “Ela é a única empresa de petróleo que quanto mais vende gasolina e diesel, mais o seu prejuízo aumenta”, disse.

A queda do real frente ao dólar está ocorrendo em um momento de forte elevação das importações de petróleo e de derivados, resultado de um aumento explosivo do consumo interno de combustíveis. De 2008 a 2012, o consumo de gasolina cresceu 58%. O Brasil saiu da situação de exportador de gasolina, com receita de US$ 1,8 bilhão em 2007, para a de importador, com gastos de US$ 3 bilhões em 2012. O aumento da frota de veículos, estimulado pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), é apontado pelo TCU como uma das razões para essa elevação do consumo de gasolina, que cresce em ritmo maior do que o Produto Interno Bruto (PIB).

A queda do real frente ao dólar está ocorrendo em um momento de forte elevação das importações de petróleo e de derivados, resultado de um aumento explosivo do consumo interno de combustíveis. De 2008 a 2012, o consumo de gasolina cresceu 58%. O Brasil saiu da situação de exportador de gasolina, com receita de US$ 1,8 bilhão em 2007, para a de importador, com gastos de US$ 3 bilhões em 2012. O aumento da frota de veículos, estimulado pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), é apontado pelo TCU como uma das razões para essa elevação do consumo de gasolina, que cresce em ritmo maior do que o Produto Interno Bruto (PIB).

Nos últimos anos, aumentou a dependência externa brasileira em relação aos derivados do petróleo. Em 2012, a dependência externa de gasolina ficou próximo de 12% do mercado, a de GLP em 20% e do óleo diesel, 14%. A conclusão do relatório do TCU é que “o setor de abastecimento da Petrobras continuará a ter prejuízos até que haja mudança no cenário atual: demanda crescente por derivados; incapacidade de curto prazo de se ampliar a oferta com aumento da capacidade de refino; importação de derivados a preços mais elevados do que os praticados no mercado interno; ausência de sinalização de mercado que evidencie a necessidade de adequação do consumo, com efeitos diretos no mercado de etanol, que encontra dificuldade em face da baixa competitividade”.

O impacto do câmbio sobre o caixa da Petrobras só poderá ser minimizado com um aumento de preços dos combustíveis. Adriano Pires acha muito difícil que isso venha a acontecer. Em primeiro lugar, raciocina o diretor do CBIE, por causa das repercussões dessa decisão sobre a inflação. Depois, por uma questão eleitoral. Se o aumento não ocorrer neste ano, é improvável que ele aconteça em 2014, ano da eleição presidencial. “Se não houver aumento, o acionista da Petrobras é que irá pagar a conta”, disse Pires ao Valor.

No mês passado, durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado, a presidente da Petrobras, Graça Foster, foi questionada sobre o subsídio que a empresa está concedendo aos consumidores brasileiros. O senador Francisco Dornelles (PP-RJ) perguntou se não seria mais adequado que o Tesouro Nacional bancasse o subsídio, já que ele resultava de decisão de governo. A pergunta ficou sem resposta.

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