Brasil pode ter papel importante no agronegócio de país africano

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Josias Messias, enviado especial a Cartum

Embaixador do Brasil no Sudão, José Mauro da Fonseca Costa Couto

Já se disse que “a geografia não determina a história, mas a incita”. Com a terceira maior extensão territorial do continente africano, com 1,8 milhão de km2, 60 milhões de há agricultáveis, água abundante para irrigação, topografia plana e adequada para a mecanização e produção em larga escala, o Sudão está reencontrando sua vocação natural para o agronegócio e pode servir como plataforma de exportação do agribusiness brasileiro.

Enfrentando séria crise financeira desde a cisão que deu origem ao Sudão do Sul, em 2011, cujo território era responsável por ¾ de suas exportações de petróleo, além dos baixos preços da commodity no mercado internacional, o país ficou sem sua principal fonte de renda e está obrigado a desenvolver todo o seu potencial agrícola e agropecuário.

O Sudão possui o maior rebanho do continente africano. É grande exportador de carne in natura para os países vizinhos e caminha desenvolvendo grandes projetos de produção em parceria com países como o Egito e a Arábia Saudita.

No norte do país, na divisa com o Egito, milhares de hectares produzem alfafa e outras forrageiras para exportação. Na região sudoeste, próximo à divisa com a Eritréia, há um projeto de produção em larga escala de frutas tropicais, também para exportação.

Sudão desenvolve sua indústria açucareira

O setor sucroenergético no Sudão possui seis usinas, com moagem de aproximadamente 8 milhões de toneladas de cana por safra, mas possui capacidade instalada para moer 12,6 milhões e produzir 1,2 milhões de toneladas de açúcar. Sua maior e mais moderna usina, a White Nile Sugar, possui uma capacidade instalada para moer 4,5 milhões de toneladas de cana por ano, mas, por dificuldades técnicas e financeiras, está moendo bem abaixo da sua capacidade.

Recentemente, a estatal Sudanese Sugar Company assinou um acordo de cooperação com a universidade brasileira Ufscar, através das Nações Unidas e o Itamaraty, para uma consultoria visando aumentar a produtividade da cana no país. Com este objetivo, uma equipe liderada pelo professor Otávio Valsechi, da Ufscar, de São Carlos (SP), está transferindo conhecimento ao país.

O desenvolvimento técnico e tecnológico das usinas de açúcar no Sudão se justifica. Com grande potencial para tornar-se exportador de açúcar, devido às condições edafoclimáticas favoráveis e proximidade com mercados importantes, como o Egito e Arábia Saudita, o país ainda é importador do produto.

Com o objetivo de triplicar a capacidade de produção de açúcar do país, o governo sudanês elaborou um plano reconhecido como “The Sugar Master Plan” que contempla dez novas usinas sob o controle da Sudanese Sugar Company e dois projetos que a Kenana Sugar Company está desenvolvendo de forma privada. O principal entrave continua sendo o funding para colocar o plano em ação.

 

Mas, o provável fim das sanções internacionais impostas pelos EUA relativas ao grave incidente ocorrido no ano de 2000, conhecido como ‘massacre de Darfur’, abre espaço para grandes projetos no país. Na opinião do Embaixador do Brasil no Sudão, José Mauro da Fonseca Costa Couto, “assim que forem levantas as sanções, o que deve acontecer nos próximos 2 anos, financiamentos para projetos agrícolas de larga escala estarão disponíveis e transformarão o Sudão no principal fornecedor de alimentos do Oriente próximo e da região Nordeste da África”.

Oportunidade para o Brasil preservar mercados expressivos

Usina White Niles Sugar inaugurada em 2012

Isto abre uma grande oportunidade para que os produtores brasileiros façam um exercício de estratégia comercial defensiva. A estratégia atual tem sido ofensiva, abrindo mercados para os produtos brasileiros, o que é importante, mas o embaixador pede que olhem com atenção o Sudão como uma plataforma para preservação e perpetuação de mercados expressivos já conquistados no norte da África e no Oriente Médio. “Os produtores brasileiros, que já abastecem mais de 80% do mercado consumidor de proteína animal no Egito e de países do Golfo Pérsico, têm hoje a oportunidade de consolidar estes mercados a partir da produção no Sudão”, explica.

Esta proposta segue a estratégia sugerida pelo ex-ministro da Agricultura do Brasil, Alisson Paulinelli, durante conferência do Banco Africano de Desenvolvimento, ocorrida em Abdjan, na Costa do Marfim, na qual mostra a participação de grupos brasileiros em apenas dez projetos agrícolas em toda a África — o que é muito pouco considerando que o continente possui 54 nações e mais de 1 bilhão de habitantes. “Se a agricultura brasileira cresceu e deu um salto qualitativo graças ao convenio firmado com o Japão na década de 1970, que compartilhou capital e know how próprio, o Brasil pode fazer o mesmo hoje com países africanos, especialmente o Sudão”, sugere Costa Couto.

É o que estão fazendo países como o Egito e a Arábia Saudita, ao implantar joint ventures e parcerias no Sudão visando aproveitar a terra e água abundantes no país para abastecer seus próprios mercados de alimentos.

Escala global e presença local

Cultura da Cana no Sudão já utiliza expertise e equipamentos brasileiros

Uma das filosofias básicas para liderar o mercado internacional é produzir em escala global e ter presença local, para entender melhor o consumidor, ganhando capacidade para reduzir custos e agregar valor aos produtos, tornando-os mais competitivos em cada mercado atendido. Para o embaixador, o Brasil deve adotar esta estratégia, transformando-se de grande exportador de produtos para exportador de capital e do know how desenvolvidos no País. “Os produtores brasileiros investiram pesado e desenvolveram uma expertise preciosa em agribusiness, em tecnologias sensíveis como sementes, manejo, fertilização, irrigação, mecanização e processamento, a qual deveria ser estendida a outros países que apresentem condições parecidas e potencial competitivo. As empresas do agronegócio brasileiro devem produzir não apenas no Brasil, mas usar outros países como plataforma de extensão de seus negócios”, explica.

Como país africano e ao mesmo tempo árabe, o Sudão reúne condições incríveis para transformar a plataforma de exportação do agribusiness brasileiro para a região e perpetuar a participação do Brasil nos países circunvizinhos. “Creio que este seja o melhor momento para os empresários convocarem uma maior presença do Governo Brasileiro no Sudão, visando participar efetivamente das oportunidades que estão surgindo agora, antes que estas sejam aproveitadas por outros países concorrentes, como Índia, China, Austrália, África do Sul e, inclusive, os Estados Unidos, ao levantar as sanções.

País enfrenta grandes desafios em culturas de larga escala

Oportunidades não faltam no país norte-africano. Os sudaneses estão sofrendo uma longa curva de aprendizagem na produção das principais culturas de larga escala, como soja e milho, cujas sementes são oriundas do hemisfério norte, de clima temperado, nos quais as culturas não enfrentam a diversidade de intensidade de pragas e temperaturas como no ambiente tropical. O Brasil poderia ajudar o país, já que superou esta fase e possui expertise e tecnologias para produzir de forma competitiva grãos e proteína animal em larga escala em clima tropical, como o Sudão.

Sob o aspecto humanitário, o Brasil também tem a oportunidade de contribuir com o combate à desnutrição que ainda atinge alguns países africanos, impulsionando o desenvolvimento socioeconômico da região.  O Sudão pode representar ao Brasil, ao mesmo tempo, uma volta às origens e um salto ao futuro. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, 52% da população brasileira possui ascendência africana. Somando-se à vocação agrícola do Brasil, o Sudão pode ser a porta de entrada para que o país, enfim, se encontre com sua origem e cumpra também sua vocação natural.

“Nos últimos anos, com a crise econômica no Sudão, a renda per capta que era de USD 1,700 em 2010 caiu mais de 30%, gerando um clamor internacional pelo perdão da dívida externa do país e o levantamento das sanções por parte dos EUA, o que, na minha opinião, não demora muito a acontecer. Agora é o momento do Brasil montar as parcerias e aproveitar esta oportunidade histórica”, finaliza Costa Couto.

 

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