BNDES: demanda por financiamento ambiental ainda é menor que oferta

Longe de ser afetado pelas perspectivas de redução do volume de recursos em tempos de nova crise rondando a economia global, o financiamento ambiental no Brasil vive uma situação particular: informações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dão conta de que existe mais dinheiro disponível do que demanda para custear projetos focados em sustentabilidade. Os desembolsos para energias renováveis, os que apresentaram maiores avanços nos últimos sete anos na instituição, saltaram de R$ 15 milhões, em 2000; para R$ 7,1 bilhões, em 2008 – valores até agosto e previstos a partir de setembro. Do ano passado até este ano a procura dobrou, nesse segmento, mas ainda assim está aquém do que o banco poderia financiar.

Quando indagado sobre o quanto o BNDES poderia financiar, a partir de suas linhas específicas voltadas para sustentabilidade, o chefe do Departamento de Meio Ambiente e Responsabilidade Social da instituição, Eduardo Bandeira de Mello, assegura: “O céu é o limite. Temos capacidade de financiar qualquer demanda. Não faltam recursos, pelo contrário, faltam projetos”, reforça o executivo reconhecendo que embora tenham sido verificados avanços, sobretudo em relação às energias renováveis, a busca pelas linhas de “crédito verde” continua abaixo das expectativas do banco.

etanol. Dos desembolsos para energias renováveis no BNDES este ano, até agosto e previstos a partir de setembro, a maior demanda por financiamento, um montante de R$ 4 bilhões, veio dos fabricantes de etanol, tendo superado e, muito, a procura em relação a 2007, quando esse segmento demandou R$ 1,6 bilhão. O crescimento da procura pelos empresários do setor se deu a partir de 2005, mas ainda é pequena, na avaliação de Mello, levando em consideração o potencial produtivo do País para esse tipo de combustível renovável e os desafios empresariais e sociais frente às mudanças climáticas.

Além das empresas fabricantes de etanol, a segunda maior demanda por financiamento de fontes energéticas mais limpas, veio dos empresários dispostos a investir em Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), segmento para o qual os desembolsos este ano alcançam R$ 1,8 bilhão, ante R$ 1,1 bilhão durante 2007.

Embora tenha sido criada em 2006, a linha que apresenta, até então, mais baixa demanda na carteira do BNDES é a de eficiência energética que totaliza dez projetos cujo volume de financiamento pelo banco é de R$ 43 milhões. “O empresário, em geral, ainda não tem plena consciência do significado de eficiência energética. No setor industrial existem pequenos avanços, mas no comercial ainda não há grande percepção”, reforça Mello.

O executivo afirmou que o BNDES tem buscado motivar os empresários ao buscar em todos os projetos que analisa, anualmente, possibilidades de melhoria na gestão ambiental. “Além de fazer proposições, oferecemos recursos adicionais para que as empresas consigam se adequar às exigências sócio-ambientais.” Para cada caso são observadas, segundo exemplificou, perspectivas de geração de crédito de carbono, com base nas diretrizes do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) previsto no Protocolo de Kyoto. “Acreditamos que nesse segmento existe muita possibilidade de avanços para as empresas que atuam em gestão de resíduos sólidos e transportes”, acrescenta.

fundo perdido. Outra forma de estimular avanços em termos de geração de novos conhecimentos para melhorar a atuação futura do setor produtivo, segundo Mello, é o apoio ao desenvolvimento tecnológico, a partir de financiamento de R$ 200 milhões a fundo perdido. Os recursos são destinados, via Fundo Tecnológico (Funtec), às instituições de pesquisa que atuam em projetos de redução de emissões de Gases do Efeito Estufa, além de energias renováveis.

Para a diretora de Sustentabilidade da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Sônia Favaretto, o sistema bancário brasileiro é avançado, tem incorporado, gradativamente, análise de risco sócio-ambiental às operações de financiamento, além de ampliado as linhas de crédito focadas em sustentabilidade. No entanto, defende a executiva, “o tema ainda é novo no Brasil e leva um tempo para ser melhor assimilado pela sociedade”. Em função dessa complexidade, na sua percepção, a demanda por financiamento para projetos socioambientais ainda está aquém da oferta. “Existe sim, um descompasso, mas acredito que daremos um salto já em 2009. O mercado leva um tempo para assimilar novas oportunidades ditadas pela realidade global, mas esse é um caminho sem volta”, reforça Sônia.

Entre os avanços do setor bancário brasileiro no que se refere às preocupações com as questões sócio-ambientais a diretora citou a adesão de seis grandes grupos (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, HSBC, Real e Unibanco) aos Princípios do Equador – diretrizes já adotadas por 60 bancos no mundo, que condicionam análise de riscos sócio-ambientais dos empreendimentos para concessão de crédito acima de US$ 10 milhões, em projetos de países emergentes.

Cinco anos depois de sua criação por dez instituições financeiras, as regras dos Princípios do Equador estão sendo revistas e nesse processo, segundo Sônia, a liderança brasileira se expressa na participação do gerente de Avaliação de Riscos Sócio-ambientais do Itaú BBA, Marcelo Campos Battisti, como chairman do Comitê Diretivo dos Princípios do Equador. A executiva destacou, ainda, que consta do Relatório Social 2007, do setor bancário, elaborado por iniciativa da Febraban, que no ano passado foram investidos no Brasil R$ 259,1 milhões para melhoria ambiental pelas instituições associadas.

banco real. Entre 2005 e 2007 o volume de recursos para financiamento de projetos focados em sustentabilidade no Banco Real saltou de R$ 79 milhões para R$ 824 milhões. Segundo o superintendente de Produtos para a Sustentabilidade, Júlio Bin, os resultados positivos refletem as ações de estímulo às melhores práticas sócio-ambientais que a instituição vem desencadeando há sete anos, no Brasil, em caráter pioneiro.

“Trabalhamos junto aos nossos clientes visando à geração e o crescimento de negócios em bases sustentáveis. É um trabalho cotidiano que tem como objetivo garantir mais acessibilidade, estimular o uso de energias renováveis, avanços em reciclagem, entre outras ações. Em termos de conscientização é possível dizer que tivemos avanços no Brasil, com relação ao conceito de sustentabilidade, sobretudo nos últimos três anos, mas transformar isso em melhores práticas é um processo que leva mais tempo”, observa o executivo. As linhas de crédito incluem quesitos como acessibilidade, produção mais limpa, energias, entre outras.

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