Biocombustíveis avançam na matriz

Poucos setores produtivos no Brasil experimentam uma dinâmica tão expressiva nos negócios como a cadeia dos biocombustíveis, liderada pela produção de etanol. Especialistas ouvidos pelo Valor projetam, informalmente, investimentos de US$ 30 bilhões nas usinas e infraestrutura do setor para o período 2009-12.

Apenas a Petrobras Biocombustível, subsidiária da petrolífera brasileira, deverá aportar US$ 3,4 bilhões, de 2009 a 2013, em produção e infraestrutura de transporte de biocombustíveis, incluindo aí, além da produção de etanol, o biodiesel, elaborado a partir da mistura de óleos vegetais ao diesel.

“O programa é um sucesso e, mesmo com a crise e os investimentos para exploração do pré-sal não reduzimos um centavo do nosso plano de expansão. Pelo contrário, elevamos nossos investimentos”, afirma o presidente da empresa, Miguel Rossetto. “No curto prazo, enxergamos um crescimento muito forte no consumo de etanol no mercado doméstico e oportunidades interessantes de inserção do combustível no mercado global”, afirma Eduardo Leão de Sousa, diretor-executivo da União da Agroindústria Canavieira (Unica), associação que congrega usinas responsáveis por mais de 50% da produção nacional de cana-de-açúcar e 60% da fabricação de etanol.

O estudo “Mapeamento e Quantificação do Setor Sucroenergético”, apoiado pela Unica e desenvolvido pelos pesquisadores Marcos Fava Neves, Vinicius Gustavo Trombin e Matheus Consoli, identifica todos os elos da cadeia energética do setor e conclui que o faturamento da área corresponde a US$ 28,15 bilhões, equivalente a quase 2% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, enquanto a movimentação financeira da cadeia está em US$ 86,8 bilhões.

Conforme dados preliminares do “Balanço Energético Nacional 2009”, produzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao Ministério de Minas e Energia, produtos da cana-de-açúcar (etanol, bagaço, caldo e melaço para fins energéticos) responderam por 16,4% da matriz energética brasileira em 2008, se tornando a segunda principal fonte de energia nacional, atrás apenas do petróleo e derivados. Sozinho, o etanol respondeu por 4,8% do consumo energético brasileiro, no ano passado.

“Os veículos flex representam 93% das vendas de automóveis novos no país e, entre os consumidores que dispõem dessa tecnologia, 75% optam pelo abastecimento com etanol. Nossa projeção é de que, em 2017, o Brasil fabricará 3 milhões de carros/ano e a produção de etanol atingirá 64 bilhões de litros/ano, 150% superior ao patamar atual, sendo 8 bilhões de litros exportados”, conta o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim.

Estudo recente produzido pelo Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), aponta que, até 2016, mantida a cotação do petróleo no mercado internacional entre US$ 50 e US$ 60 por barril, o etanol será o combustível de 80% da frota brasileira, que praticamente terá expurgado os carros movidos a gasolina. “Isso apenas como resultado da opção econômica do mercado pelo combustível mais competitivo”, aponta o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Energia da USP e ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras, Ildo Sauer.

Embora viva uma dinâmica de novos investimentos, o setor já começa a sentir a necessidade de ajustes. Um deles é a consolidação na cadeia sucroalcooleira, com a formação de conglomerados mais sólidos, com maior poder de mercado e maior capacidade financeira de investimento. “O setor ainda é extremamente pulverizado no Brasil. Existem mais de 410 unidades industriais, controladas por 200 grupos, o que é bastante atípico comparado com outras commodities”, avalia Sousa, da Unica.

O representante setorial defende a criação de uma lei do etanol. A estrutura regulatória atual, na opinião de Sousa, é repleta de indefinições e distorções mercadológicas. Um exemplo é a obrigatoriedade de os produtores comercializarem os combustíveis para os distribuidores, impedindo o fornecimento direto para a rede de venda ao consumidor. “Por esse sistema, o produtor fica com o ônus de carregar os estoques ao longo do ano, fora do período de produção, favorecendo o oligopólio da distribuição”,diz.

Um dos principais investidores no mercado de biocombustíveis do Brasil, a Petrobras Biocombustível prepara seu ingresso na produção do etanol. Miguel Rossetto afirma que a subsidiária avalia tanto promover investimentos em novos projetos (greenfield), como adquirir operações já existentes, ainda em 2009, sempre em parceria, e como sócia minoritária, voltada prioritariamente para o mercado externo.

Na visão dele, o conjunto de iniciativas no campo dos biocombustíveis permitirá ao Brasil realizar uma “ótima transição” para a queda mundial do consumo de petróleo, no futuro. “O Brasil conta com uma posição extraordinária do ponto de vista energético. Saímos bem do século 20, com descobertas de imensas reservas petrolíferas, e entramos reforçados na agenda do século XXI, com forte ênfase em fontes renováveis de energia”, analisa.

Além da exportação potencial do petróleo a ser extraído do pré-sal, os agentes do setor de biocombustíveis esperam que haja um aumento de demanda por parte dos países desenvolvidos, que planejam contar com maior participação de fontes renováveis em suas matrizes. Só o programa americano prevê, até 2022, o consumo de 135 bilhões de litros de etanol por ano. A União Europeia definiu outro programa até 2020, que representa mais 15 bilhões de litros por ano”, diz Sousa, da Unica. “Só aí já reside uma enorme oportunidade para o Brasil exportar o biocombustíveis”, avalia.

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