Biocombustíveis abrem oportunidades

Com o preço do barril do petróleo ultrapassando US$ 100 no mercado externo, os biocombustíveis são a bola da vez para escapar da dependência do óleo – principalmente em países de perfil agrícola. Com isso, a área de agroenergia, produção de energia a partir da biomassa, aponta um novo eldorado de oportunidades para as pequenas e médias empresas.

“No entorno de cada usina de biodiesel, pelo menos dez empresários de porte reduzido podem movimentar negócios que envolvam a agricultura, a indústria de óleos vegetais, a produção e o esmagamento de grãos”, afirma o agrônomo José Eurípedes, chefe adjunto de comunicação e negócios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária-Embrapa Energia.

Os números do agronegócio brasileiro são animadores e sobra terreno para a produção da energia verde. O setor é responsável por 30% do PIB nacional, 40% das exportações e por 37% dos empregos gerados no país. Ao mesmo tempo, há aumento na produção e na área plantada – o Brasil continua no primeiro lugar do ranking de produção e exportação de itens como açúcar, suco de laranja e café.

Segundo Eurípedes, quem investir em agroenergia terá um mercado garantido batendo à porta. Ele justifica dizendo que é esperada uma duplicação do consumo do etanol em dez anos e uma demanda de 2 bilhões de litros de biodiesel por ano, no Brasil, até 2013. “A Alemanha é o maior produtor de biodiesel do mundo e toda a sua matéria-prima é importada”, lembra e acrescenta que o etanol é produzido por meio de um processo de fermentação de açúcares a partir de biomassa de fácil processamento, como a sacarose da cana.

Nos Estados Unidos, espera-se a substituição de 20% do consumo de gasolina por álcool em dez anos, enquanto o Japão pretende misturar 5% do produto nos tanques, a partir de 2010. Na Índia, segundo a Embrapa, até 2017 serão adicionados 20% de biocombustíveis à gasolina e ao diesel.

Para os especialistas, são grandes as vantagens competitivas do Brasil no cenário mundial. Há diversidade de matéria-prima para o etanol, como cana-de-açúcar, sorgo sacarino e mandioca, e para o biodiesel, com a mamona, soja, palmáceas e girassol – o que deve movimentar as receitas dos pequenos produtores.

“Mas nada pode competir com a cana-de-açúcar no setor”, ressalta o pesquisador da Embrapa. Segundo Eurípedes, há áreas de plantio em todas as regiões brasileiras, totalizando 6,1 milhões de hectares, e é possível fazer de duas a três colheitas de matéria-prima por ano. “O cerrado e o Nordeste estão expandindo as zonas de cultivo e o potencial para a produção é 20 vezes maior do que o atual.”

Em novembro, o governo federal deve definir um zoneamento nacional para aumentar a exploração da cana-de-açúcar. “O ideal é chegar a 25 milhões de hectares, com uma produção acima de 75 toneladas por hectare, ao ano. O mercado já está estabelecido, agora é preciso investir nos arranjos produtivos locais.”

As oportunidades para o pequeno negócio na área de biocombustíveis começam no plantio, passam pelo processamento industrial, o que inclui moagem e fermentação do material, e chegam à produção do biodiesel. Uma recomendação importante dos técnicos é que o óleo produzido seja aproveitado regionalmente para eliminar custos de logística e de distribuição. “Não faz sentido queimar diesel para transportar biodiesel.”

A Petrobras, que tem como meta produzir 75% do biodiesel no Brasil, já instalou duas usinas no Nordeste: em Candeias (BA) e em Quixadá (CE). Uma terceira será instalada em Montes Claros (MG). As três unidades devem produzir 170 milhões de litros.

Além da cana, pequenos fazendeiros de soja e pinhão-manso também devem ter dias melhores pela frente porque esse produtos serão utilizados na corrida pelo mercado de combustíveis naturais. A soja já é usada na fabricação do biodiesel, com uma participação de 80% entre as fontes de energia exploradas. “A soja é fundamental para a cadeia produtiva da agroenergia até que se viabilizem outras matérias-primas”, diz Eurípides.

A Embrapa já conta com um programa de estudo do pinhão-manso para o melhoramento genético da planta. Em Uberlândia, o Instituto Volta ao Campo-IVC coordena o plantio com pequenos agricultores. O plano é saltar de uma área de exploração de 40 mil para 80 mil hectares, em cinco anos. Outras fontes, como o girassol e a mamona, também são apontados como potenciais substitutos da soja.

“Até 2020, serão investidos US$ 15 bilhões, em todo o mundo, na pesquisa e produção de biocombustíveis”, revela Weber Amaral, coordenador do Pólo Nacional de Biocombustíveis da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo-Esalq/USP. No Brasil, esse valor chega a apenas US$ 300 milhões, mas algumas iniciativas prometem um empurrão no segmento.

Em Piracicaba (SP), deve ser entregue em agosto de 2009 a primeira fase de um parque tecnológico voltado à pesquisa do combustível renovável. O centro de estudos chega na hora certa: o Estado de São Paulo responde por mais de 70% das exportações brasileiras do setor sucroalcooleiro, com um faturamento de US$ 4,5 bilhões em 2007.

Com investimentos de R$ 100 milhões e 400 mil metros quadrados de área, a unidade de pesquisa terá uma incubadora de empresas e laboratórios para o desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de biocombustíveis. “Piracicaba é dona de 21% da participação brasileira de patentes em biocombustíveis e bionergia.” O parque tecnológico também vai receber a primeira Fatec-Faculdade de Tecnologia da cidade, que já funciona na região, com um curso de bionergia sucroalcooleira.

Longe dos centros de pesquisa, ações de pequenos produtores mostram na prática os novos rumos do agronegócio sustentável. No sul de Alagoas, a Usina Pindorama foi erguida por uma cooperativa de 1,1 mil associados que compartilham 1,4 mil lotes de terra. Com investimento próprio de R$ 11 milhões, tem capacidade para produzir 10 mil sacas de açúcar por dia e gera 100 empregos. “É um modelo de geração de renda e reforma agrária consolidada”, elogia José Eurípedes.

Biocombustíveis abrem oportunidades

Com o preço do barril do petróleo ultrapassando US$ 100 no mercado externo, os biocombustíveis são a bola da vez para escapar da dependência do óleo – principalmente em países de perfil agrícola. Com isso, a área de agroenergia, produção de energia a partir da biomassa, aponta um novo eldorado de oportunidades para as pequenas e médias empresas.

Jacílio Saraiva / Valor

José Eurípedes: “A cana-de-açúcar é imbatível, com 6,1 milhões de hectares e duas ou três colheitas por ano”

“No entorno de cada usina de biodiesel, pelo menos dez empresários de porte reduzido podem movimentar negócios que envolvam a agricultura, a indústria de óleos vegetais, a produção e o esmagamento de grãos”, afirma o agrônomo José Eurípedes, chefe adjunto de comunicação e negócios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária-Embrapa Energia.

Os números do agronegócio brasileiro são animadores e sobra terreno para a produção da energia verde. O setor é responsável por 30% do PIB nacional, 40% das exportações e por 37% dos empregos gerados no país. Ao mesmo tempo, há aumento na produção e na área plantada – o Brasil continua no primeiro lugar do ranking de produção e exportação de itens como açúcar, suco de laranja e café.

Segundo Eurípedes, quem investir em agroenergia terá um mercado garantido batendo à porta. Ele justifica dizendo que é esperada uma duplicação do consumo do etanol em dez anos e uma demanda de 2 bilhões de litros de biodiesel por ano, no Brasil, até 2013. “A Alemanha é o maior produtor de biodiesel do mundo e toda a sua matéria-prima é importada”, lembra e acrescenta que o etanol é produzido por meio de um processo de fermentação de açúcares a partir de biomassa de fácil processamento, como a sacarose da cana.

Nos Estados Unidos, espera-se a substituição de 20% do consumo de gasolina por álcool em dez anos, enquanto o Japão pretende misturar 5% do produto nos tanques, a partir de 2010. Na Índia, segundo a Embrapa, até 2017 serão adicionados 20% de biocombustíveis à gasolina e ao diesel.

Para os especialistas, são grandes as vantagens competitivas do Brasil no cenário mundial. Há diversidade de matéria-prima para o etanol, como cana-de-açúcar, sorgo sacarino e mandioca, e para o biodiesel, com a mamona, soja, palmáceas e girassol – o que deve movimentar as receitas dos pequenos produtores.

“Mas nada pode competir com a cana-de-açúcar no setor”, ressalta o pesquisador da Embrapa. Segundo Eurípedes, há áreas de plantio em todas as regiões brasileiras, totalizando 6,1 milhões de hectares, e é possível fazer de duas a três colheitas de matéria-prima por ano. “O cerrado e o Nordeste estão expandindo as zonas de cultivo e o potencial para a produção é 20 vezes maior do que o atual.”

Em novembro, o governo federal deve definir um zoneamento nacional para aumentar a exploração da cana-de-açúcar. “O ideal é chegar a 25 milhões de hectares, com uma produção acima de 75 toneladas por hectare, ao ano. O mercado já está estabelecido, agora é preciso investir nos arranjos produtivos locais.”

As oportunidades para o pequeno negócio na área de biocombustíveis começam no plantio, passam pelo processamento industrial, o que inclui moagem e fermentação do material, e chegam à produção do biodiesel. Uma recomendação importante dos técnicos é que o óleo produzido seja aproveitado regionalmente para eliminar custos de logística e de distribuição. “Não faz sentido queimar diesel para transportar biodiesel.”

A Petrobras, que tem como meta produzir 75% do biodiesel no Brasil, já instalou duas usinas no Nordeste: em Candeias (BA) e em Quixadá (CE). Uma terceira será instalada em Montes Claros (MG). As três unidades devem produzir 170 milhões de litros.

Além da cana, pequenos fazendeiros de soja e pinhão-manso também devem ter dias melhores pela frente porque esse produtos serão utilizados na corrida pelo mercado de combustíveis naturais. A soja já é usada na fabricação do biodiesel, com uma participação de 80% entre as fontes de energia exploradas. “A soja é fundamental para a cadeia produtiva da agroenergia até que se viabilizem outras matérias-primas”, diz Eurípides.

A Embrapa já conta com um programa de estudo do pinhão-manso para o melhoramento genético da planta. Em Uberlândia, o Instituto Volta ao Campo-IVC coordena o plantio com pequenos agricultores. O plano é saltar de uma área de exploração de 40 mil para 80 mil hectares, em cinco anos. Outras fontes, como o girassol e a mamona, também são apontados como potenciais substitutos da soja.

“Até 2020, serão investidos US$ 15 bilhões, em todo o mundo, na pesquisa e produção de biocombustíveis”, revela Weber Amaral, coordenador do Pólo Nacional de Biocombustíveis da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo-Esalq/USP. No Brasil, esse valor chega a apenas US$ 300 milhões, mas algumas iniciativas prometem um empurrão no segmento.

Em Piracicaba (SP), deve ser entregue em agosto de 2009 a primeira fase de um parque tecnológico voltado à pesquisa do combustível renovável. O centro de estudos chega na hora certa: o Estado de São Paulo responde por mais de 70% das exportações brasileiras do setor sucroalcooleiro, com um faturamento de US$ 4,5 bilhões em 2007.

Com investimentos de R$ 100 milhões e 400 mil metros quadrados de área, a unidade de pesquisa terá uma incubadora de empresas e laboratórios para o desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de biocombustíveis. “Piracicaba é dona de 21% da participação brasileira de patentes em biocombustíveis e bionergia.” O parque tecnológico também vai receber a primeira Fatec-Faculdade de Tecnologia da cidade, que já funciona na região, com um curso de bionergia sucroalcooleira.

Longe dos centros de pesquisa, ações de pequenos produtores mostram na prática os novos rumos do agronegócio sustentável. No sul de Alagoas, a Usina Pindorama foi erguida por uma cooperativa de 1,1 mil associados que compartilham 1,4 mil lotes de terra. Com investimento próprio de R$ 11 milhões, tem capacidade para produzir 10 mil sacas de açúcar por dia e gera 100 empregos. “É um modelo de geração de renda e reforma agrária consolidada”, elogia José Eurípedes.

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