Barreiras prejudicam biocombustível do País

A demanda mundial por biocombustíveis irá continuar em elevação nos próximos anos, mesmo que em menor intensidade que a verificada recentemente, e o Brasil é o único país com condições de atender às necessidades e assumir uma posição de liderança global. No entanto, barreiras comerciais protecionistas ainda em vigência devem retardar o processo para depois de 2015, pelo menos. O cenário foi traçado por especialistas ontem, durante a conferência Rio Oil & Gas, que desde segunda-feira acontece no Riocentro, no Rio de Janeiro, com participantes de 20 países.

Segundo o presidente da empresa de consultoria Datagro, Plínio Nastari, 56% do etanol produzido no mundo têm origem em grãos, principalmente milho, e 44% na cana-de-açúcar, mas as limitações à expansão do cultivo de milho nos Estados Unidos e a competitividade que o sistema de produção brasileiro oferece favorecem o produto nacional. O executivo diz que o abastecimento com combustível com 10% de etanol misturado à gasolina (E10) já é aceito pelas montadoras em todo o mundo e que somente essa frota exigiria 117 bilhões de litros, enquanto a produção em 2007 foi de 49,7 bilhões.

Nastari aponta que os Estados Unidos, atualmente os maiores produtores mundiais de etanol, estão próximos de seu limite porque a legislação do país limitou em 57 bilhões de litros a produção com origem no milho. O restante teria que vir de outras fontes, como a cana-de-açúcar e a celulose. “Os Estados Unidos têm terras, mas não possuem água. Além disso, o aumento da produção de milho gerou uma competição com a soja e a elevação do preço dos dois grãos. No valor atual, o etanol de milho não é competitivo com a gasolina”, avalia. O executivo destaca que a produção a partir de celulose ainda não é viável por questões logísticas e encontra sua melhor perspectiva justamente no Brasil, onde este aspecto é facilitado pelo sistema da indústria da cana-de-açúcar, o que viabilizaria o uso de palha e bagaço.

Há, porém, barreiras comerciais que precisam ser vencidas para que a partir de 2015, quando os especialistas estimam que os Estados Unidos alcancem seu limite, o Brasil possa ocupar os mercados. Atualmente, o etanol brasileiro paga uma sobretaxa de US$ 0,95 por litro mais 2% sobre o valor total da venda aos norte-americanos e 19 euros por litro para o álcool não-desidratado vendido à Europa. “Isso onera o etanol do País e coloca um subsídio que a indústria norte-americana não necessita mais. Acredito que a retirada da tarifa mostra o que deveria ser o livre mercado”, defende o diretor da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Alfred Szwarc.

Outro ponto a ser vencido se refere às informações difundidas mundialmente de que o aumento da área de cultivo de cana-de-açúcar estaria provocando um maior desmatamento na Floresta Amazônica. “O Brasil deve esclarecer onde ocorre sua produção e mostrar que detém cerca de 25% das reservas mundiais de terras aptas para agricultura”, provoca o vice-presidente da empresa Brenco, Rogério Manso. Para o diretor do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (IBP), José Luiz Orlandi, esses aspectos protecionistas começam a receber a resistência da sociedade. “Nosso etanol é o mais competitivo e não compete com alimentos. A sociedade já percebe isso e está começando a ficar incomodada por pagar pelo grau de protecionismo atual”, constata.

Barril deve estabilizar entre US$ 70 e US$ 75

A cotação do barril de petróleo do tipo Brent, que nos últimos meses assombrou os consumidores e impulsionou os índices inflacionários ao redor do globo, está iniciando um processo de redução gradativa e deve se estabilizar entre US$ 70 e US$ 75 a partir de 2015. A mudança de patamar do preço da commodity acontece pela desaceleração do crescimento da demanda mundial por petróleo aliada à expansão da produção, aponta o estudo Contexto Mundial e Preço do Petróleo, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A composição do valor do barril sofre a influência de fatores básicos da economia, como a oferta e a demanda, além de aspectos geopolíticos e de mercado de capitais.

O presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim, prevê que o consumo mundial de petróleo caia 3,8% por ano até 2010 e deve ser seguido por um período de recuperação de 4% ao ano até 2035. No entanto, a quantidade de barris necessários para produzir US$ 1 milhão do Produto Interno Bruto (PIB) dos países está diminuindo de intensidade em função do uso de outras fontes de energia e da melhoria da eficiência.

Para atender a essa demanda estimada, Tolmasquim identifica um aumento de produção em novos países, como o Brasil, e em membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), capitaneados pela Arábia Saudita. “A elevação que observamos recentemente foi provocada, entre outros motivos, pela redução da ociosidade da Arábia Saudita, que percebeu agora que pode estar com isso dando mais poder ao seu inimigo Irã”, diz. Com maior ociosidade, os investidores ficam menos suscetíveis aos sobressaltos políticos e de clima que podem influenciar a produção mundial, reduzindo assim a procura por papéis lastreados em petróleo. As projeções da EPE traçam uma redução da demanda especulativa nos próximos anos, tendo como fato gerador a recuperação do dólar. A curva da cotação do barril deve voltar a subir a partir de 2030. (LB)

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