Banco vê apetite por dívida de usina

Há pelo menos dois anos com o açúcar a preços recordes, algumas usinas sucroalcooleiras do país começam a aproveitam a boa maré para reverter o quadro de alta alavancagem e captar recursos no mercado para trocar dívida cara por mais barata ou alongar débitos que vencem no curto prazo. Há caso de uma usina que partiu para emissão de títulos de dívida externa, algo pouco usual no agronegócio, com exceção dos frigoríficos do país.

O Banco Itaú BBA enxerga espaço para que esse mercado se desenvolva neste ano, com apetite dos investidores, de um lado, e empresas com necessidades de refinanciamento, de outro. A avaliação é de Alexandre Figliolino, diretor-comercial do Itaú BBA.

Ao final de janeiro, o grupo de médio porte Virgolino de Oliveira, com quatro usinas de açúcar e álcool em São Paulo, foi ao mercado extern o para captar pelo menos US$ 200 milhões. Com a boa demanda dos investidores, o grupo conseguiu US$ 300 milhões com um prazo de sete anos e taxa de remuneração ao investidor de 10,5%.

Na semana passada, mesmo com a maior aversão a risco nos mercados por conta da crise no Egito, os títulos da Virgolino fecharam negociados a taxas menores, de cerca de 10% ao ano. “O mercado está procurando nomes novos e o setor de açúcar e álcool passa por um bom momento”, diz Figliolino, referindo-se às perspectivas de preços altos de açúcar nas próximas safras.

Também para melhorar sua condição de pagamento, a Usina Ferrari, que como a Virgolino é associada da Copersucar – a maior comercializadora de açúcar e álcool do país – também está aproveitando a oportunidade que se abriu para realizar uma emissão de dívida. A operação está em curso para captar entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões, mas no mercado interno e apenas entre os bancos já credores. Procurada, a empresa apenas confirmou a operação, sem dar detalhes sobre valores e condições.

Segundo levantamento feito pelo Itaú BBA em sua própria carteira, 35 grupos sucroalcooleiros, que somam capacidade de moagem de cana de 157 milhões de toneladas, estão ou em processo de ajuste para recuperar capacidade de investimento ou sem condição nenhuma de investir devido à alta alavancagem, necessitando portanto de alguma operação estratégica para equacionar sua situação.

A estimativa do mercado é de que em 2011 o setor sucroalcooleira emita mais de US$ 1 bilhão em bônus e em outras formas de financiamento externo.

“Com prazos mais longos, esses recursos estão permitindo aos grupos alongarem seus débitos em instituições financeiras no país. Com isso, essas empresas conseguem reabrir seus limites [de crédito] com taxas mais atrativas no mercado interno”, diz Figliolino.

Apesar disso, di z ele, esses instrumentos estão sendo pouco aproveitados pelas usinas, diz o executivo. Ele avalia que nos últimos anos as usinas se financiaram de forma errada, com recursos que rapidamente se transformaram em curto prazo.

Entre as usinas de açúcar e álcool, até agora somente a Cosan, o maior grupo sucroalcooleiro do país, havia feito emissão de dívida externa. Do total de R$ 4,7 bilhões de endividamento líquido da companhia, R$ 3,4 bilhões são de títulos de dívida externa.

“Acredito que haja neste momento mais cinco grupos de açúcar e álcool de médio porte preparados para lançar bônus ou operações equivalentes no exterior”, diz Figliolino.

Alguns setores mais “tradicionais” nesse tipo de operação, como os frigoríficos, conseguem taxas de juro mais baixas e prazos ainda mais longos, segundo Figliolino. “Estamos falando de algo no patamar de 8,5% com prazo de dez anos”.

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