[Artigo] O que aprendi e o que quero aprender desenvolvendo a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar no Brasil

Por Jaime Fingerut*

Depois de mais de 37 anos trabalhando no Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) finalmente me aposentei. Daqui para frente, pretendo me manter ativo, trabalhando como consultor — inclusive do próprio CTC — e treinando novas gerações de técnicos em qualquer aspecto da bioenergia, biomassa e da bioeconomia em geral e, especialmente, na produção de etanol e fermentação. Não poderia, porém, sair sem contar o quão boas foram estas décadas, com tantas lições aprendidas. Vou focar aqui em apenas algumas delas.

A primeira lição importante é que a tal da curva de aprendizado de fato existe. Por alguma razão, Inovadores, Investidores e Instituições — os tres “Ins” ou “In ao cubo”, “incubado” — se juntam para desenvolver e ao mesmo tempo utilizar uma tecnologia que ainda está longe de estar madura, e fazendo-a operar no mundo real, fabricando produtos e gerando receita. Isso aconteceu aqui no Brasil com o etanol de cana-de-açúcar no início dos anos 70 do século passado e eu tive a sorte de ser parte deste esforço.

Quando o Brasil começou o Proalcool a nossa produção de cana, embora importante, não era muito eficiente nem muito melhor do que a dos outros países produtores. Estávamos digamos no “meio”, medíocres. Como naquela época, como hoje, boa parte do custo de produção de etanol vem da matéria-prima (cana) foi necessário muito trabalho para aumentar a produção por hectare (e por ano) e aumentar o teor de açúcar na cana, tudo isso simultaneamente e o mais rápido possível.

Após muito trabalho, desenvolvendo e plantando a variedade certa no local certo e cuidando adequadamente da cultura, aumentamos significativamente a produtividade e o rendimento em açúcar da cana, de forma sustentável, e o resultado foi que os custos de produção do etanol caíram três vezes, ou seja, os custos caíram para um terço do que eram antes do Proalcool e simultaneamente a produção aumentou mais de 20 vezes tendo portanto dobrado mais de quatro vezes. É esta a característica da curva de aprendizado, cada vez que a produção no mundo real dobra, os custos caem numa mesma proporção, acumulando-se inovações sobre inovações.

Estes fatos são conhecidos internacionalmente e o Brasil é muito respeitado por esta conquista no âmbito da Bioenergia. Algo semelhante ocorre hoje com a energia fotovoltaica, eólica e com o “shale gas” nos EUA que revolucionou o mundo do petróleo. Aqui no país, ao contrário de muitos países canavieiros, a produção de cana, açúcar, etanol, bioeletricidade e muitos coprodutos hoje são negócios mesmo, com muito pouco suporte de políticas e pouca intervenção estatal. Ainda, muitos produtores são empresas abertas e qualquer cidadão pode comprar ações das companhias e fazer parte deste esforço.

Como foi que conseguimos isso? Um dos principais impulsionadores deste processo foi o CTC, inicialmente o Centro de Tecnologia Copersucar que evoluiu para o Centro de Tecnologia Canavieira nos anos 2000, hoje uma S.A. No tempo do Proalcool o CTC estava crescendo muito, em 1986 tinha em torno de 1.600 funcionários. Nossa visão era melhorar o processo como um todo, iniciando na parte agrícola com a produção da matéria-prima, passando pela colheita e toda a logística agrícola, chegando no processamento industrial, nas utilidades necessárias, indo até a qualidade do produto final e o atendimento dos requisitos de comercialização no pais e no exterior.

A exportação do setor cresceu muito a partir da desregulamentação do setor, graças a este trabalho. É muito raro encontrar no mundo um trabalho como esse, liderado e executado por uma entidade privada, que decide e consegue melhorar tudo e ao mesmo tempo. De novo, eu estava lá…

A segunda lição importante é a respeito de como a Inovação acontece. Inicialmente o CTC era de propriedade de uma Cooperativa (privada) e, portanto, o Centro de Tecnologia era uma organização sem fins lucrativos. Nosso foco era melhorar e aumentar a produção na escala real, comercial. Nosso trabalho era semelhante a aprender a pedalar, aprender-fazendo. Tínhamos inicialmente uma equipe de jovens técnicos bem formados, que foram direto ao campo, procurando problemas, ou seja, os gargalos da produção. Este pessoal teve de viajar muito. Eles tinham de estar disponíveis para ver o que estava acontecendo em todos os clientes. Também eles tiveram de ganhar credibilidade, pois eles estavam procurando pela melhor solução e não uma solução especifica, ofertada por um ou alguns vendedores.

Surpreendentemente tivemos sucesso. Usamos um método muito simples: obtenha informação de qualidade, aprenda, entenda a Teoria, use-a na prática, obtenha a melhor solução econômica e dissemine a solução o mais e o mais rápido possível, sempre adaptando a solução para diferentes tamanhos, geografias, capacidades de investimento e condições especificas de cada cliente. Para tudo isso, de fato, não precisávamos de muitos recursos, não tínhamos laboratórios muito sofisticados, mas tínhamos o que precisávamos: boas análises químicas e de campo, bancos de dados (antes dos computadores…), um bocado de fundamentos de ciência e engenharia, bem como liberdade para interagir com os clientes e outros membros de outros grupos. Uma boa parte do trabalho foi feito em Programas (“task forces” em inglês), com os clientes conhecendo e controlando todas as atividades. Também trabalhávamos muito em assistência técnica, uma das melhores formas de conhecer os problemas reais.

Para cumprir estas incríveis tarefas, de fato não se precisava de muita hierarquia, os técnicos eram auto-motivados e os resultados podiam ser facilmente vistos na escala real e com grande impacto. Bons resultados num cliente reforçavam a necessidade e a oportunidade de obter mais resultados em mais clientes.

Então a terceira lição. Para que boa parte da Inovação aconteça precisamos de “heróis da técnica”, isso é, produtores / investidores que queriam a tecnologia e queriam obtê-la primeiro. Eles eram mais propensos a riscos e queriam ver os resultados e quando eram bons (os resultados) queriam espalha-los. Esta é mais uma vantagem de estar dentro de uma Cooperativa, mais cooperação e menos competição entre os membros e interessantemente mais competição com os não-membros. No nosso caso, estes heróis existiram e hoje ainda são os melhores produtores…

Veio então a quarta lição. A maioria das soluções foram inicialmente sendo implantadas e finalmente todos as adotaram. Os rendimentos, eficiências e produtividades (e portanto as reduções de custo) todos cresceram seguindo um formato de uma Curva-S, o que significa que no começo (quando a tecnologia estava imatura) foi bastante fácil obter melhorias, com um relativo pequeno esforço bons ganhos eram obtidos.

Em seguida os ganhos pararam de crescer exponencialmente, cresciam linearmente o que significa que a atratividade da tecnologia era decrescente, então uma grande desaceleração no crescimento e a estagnação (quando não um novo aumento de custos). Se você leitor, ver como você cresceu, você passou por todas estas fases. Isso se chama um processo de maturidade, e depois de algum tempo você fica maduro (e então… sabedoria ou morte).

Com a maturidade tecnológica, mais e mais recursos são necessários para obter menos e menos benefícios o faz com que seja muito difícil obter financiamento para continuar o desenvolvimento. Porém, se virmos o que tem acontecido à nossa volta, com outras tecnologias das quais dependemos hoje (como TI, telecomunicações, computadores, alimentos, agricultura em geral, energia, transportes, etc.), veremos que quando a tecnologia se aproxima da maturidade, costuma ocorrer um tipo diferente de Inovação, não mais incremental, mas de ruptura, uma inovação radical. Mudanças de paradigma de fato existem, podemos vê-las diariamente.

Alguém entende um novo princípio da física, da química e da biologia entra em ação os “incubados” e a tecnologia dá um salto. Estamos neste momento vivendo uma época ao mesmo tempo de maturidade — estagnação e retomada do aumento de custos — e de inovação radical com importantes descobertas. A Biotecnologia bem como a fusão de novas ferramentas como Tecnologia da Informação (TI: o conjunto de todas as atividades e soluções providas por recursos de computação que visam a produção, o armazenamento, a transmissão, o acesso, a segurança e o uso das informações) “Big Data” ( o termo que descreve o imenso volume de dados – estruturados e não estruturados – e a sua análise, que impactam os negócios no dia a dia) Sensores – Nanotecnologia (que permitem saber o ocorre em tempo real) , Geoprocessamento – imagens e informações de satélite, de “drones” e de estações decentralizadas, os “Omics”(o termo que reúne uma fantástica coleções de tecnologias usadas para explorar os papeis, os relacionamentos e ações de vários tipos de moléculas dentro um organismo, incluindo genômica, transcriptomica, proteomica, metabolomica e ainda conhecer e monitorar a existência de vários diferentes organismos interagindo num mesmo organismo, como o microbioma) e ainda produção e gerenciamento avançados (produção 4.0: uso de informação na nuvem, impressoras 3D, decisões em tempo real, decentralização, modularidade) permitem antever uma nova forma revolucionária de produzir cana e seus produtos.

Para conhecer e usar todas estas novas tecnologias e ferramentas muitos recursos são necessários, não só por que a maioria das técnicas são pouco conhecidas ou nunca foram usadas nestas aplicações especifica, mas também por que muitos gargalos e desafios surgirão tais como limitações regulatórias, de percepção do público e mesmo dificuldades de comercializar os mesmos produtos fabricados de forma diferente tanto local como globalmente. Alimentos e energia são o que há de mais importante para a humanidade e inovações radicais nem sempre são bem entendidas quando afetam diretamente muitas vidas.

É por isso que o CTC teve de mudar e muitos negócios no mundo todo estão mudando radicalmente. Veja o que aconteceu com as maiores empresas de 10-15 anos atrás e veja quem são os maiores hoje. Veja a velocidade com que as maiores empresas sobem e descem na lista. Tivemos de mudar de um modelo bem sucedido de financiamento privado para obter ganhos incrementais para uma nova forma de financiamento onde os recursos têm de ser muito maiores e portanto tem de vir do mercado (dos investidores e acionistas) e das instituições de suporte à indústria sem esquecer as parcerias com inovadores e investidores onde os resultados potenciais são muito maiores mas muito mais arriscados e tem de ser divididos entre as partes que arriscam.

É aqui onde o CTC se encontra. Passaremos desta fase? Com certeza sim, pois o limite de produtividade (o teto) da cana ainda está muito longe e poderemos aumentar muito com as novas ferramentas. Outras culturas já se aproximam do teto e usaram algumas destas tecnologias. O que era factível antes já fizemos. O que será feito a partir de agora é o mais difícil pois temos de ir onde poucos ameaçaram ir. Mas vale a pena.

E o que eu ainda quero aprender? É exatamente aonde está este balanço entre o radical e o incremental. Será que a produção de etanol no país que tem de aumentar e melhorar muito para ser competitiva por exemplo para seu uso nos transportes, ainda pode melhorar de forma incremental porém usando todo o novo conhecimento acumulado nos últimos poucos anos? Um novo CTC, agora como negócio incremental é viável? Ou será que não vale a pena melhorar o que existe e ir para o outro lado, radical, deixando o incremental para o “Mercado” (ninguém)? Agora que estou aposentado, pretendo jogar nos dois campos, que podem trazer benefícios significativos, porém de formas bem diferentes. Isso é maturidade… contem comigo!

jaime finguerut, do ctc

* Jaime Finguerut o autor deste artigo, é um engenheiro químico com muitos cursos de pós-graduação e de gestão, e tem trabalhado com produção industrial de etanol, fermentação e desenvolvimento de bioprocessos por mais de 40 anos, dos quais os últimos 37 no CTC – Centro de Tecnologia Canavieira S.A. Jaime também trabalhou com biodigestão anaeróbica de resíduos municipais para a fabricação de Biogas e em processo de fermentação avançados para a produção de proteínas microbianas a partir de hidrocarbonetos.