Área para produção de biocombustíveis pode subir 54 milhões de hectares

Nos próximos cinco anos, o mundo necessitará de até 54 milhões de hectares a mais para atender ao consumo mundial de biocombustíveis, sendo que até 90% desse total virá da América do Sul. Essa demanda adicional por terras – ativo cada vez mais cobiçado – deverá ter impacto negativo para o ambiente, contrariando as discussões de preservação da biodiversidade e de redução de carbono.

Mas nem tudo está perdido. Uma saída viável seria canalizar esses milhões de hectares para áreas de pastagens e combiná-los com um modelo de pecuária intensiva. Isso poderia tornar o Brasil, maior produtor de biocombustível do continente, em um “modelo ambiental e uma superpotência agrícola a ser invejada pelo mundo”.

Essas são as principais conclusões do relatório divulgado pela organização ambiental The Nature Conservancy (TNC). Intitulado “Uma Oportunidade para o Brasil: Minimizando os Custos Ambientais da Expansão dos Biocombustíveis”, o estudo foi elaborado pela LMC International, consultoria de commodities agrícolas do Reino Unido, com o objetivo de quantificar o potencial da área destinada aos biocombustíveis em 2014.

A divulgação coincide com a realização da Conferência Internacional dos Biocombustíveis, e a data não é aleatória: o seminário promovido pelo governo tenta fechar o foco no etanol, apesar do nome. “O debate é mais que isso. O que dizemos é que a cana não desmata a Amazônia, e a soja sim”, diz Ana Cristina Barros, da TNC. O grão é a principal matéria-prima para produção de biodiesel no país.

O objeto de trabalho do relatório é o Cerrado. É neste bioma, que abastece boa parte do país de água e onde a soja se alastra, que a demanda por terra para biocombustíveis se concentrará. Com base em censos agropecuários de 1970 a 2006, os especialistas debruçaram-se sobre três cenários: manutenção do quadro econômico, comércio aumentado e crescimento mundial lento. Para comparação, foram usados dados de terras aráveis deste ano para produção de alimento/ração e biocombustíveis.

No primeiro cenário, onde os preços de energia continuariam altos e os governos manteriam a proteção dos setores agrícolas via tarifa de importação, a área mundial para biocombustíveis cresceria dos 31 milhões de hectares atuais para 85 milhões.

Com crescimento lento, cenário mais provável, a área atingiria 42 milhões de hectares. Na hipótese de melhora no comércio, onde os preços de energia continuariam altos, mas com redução de barreiras comerciais, a área passaria de 31 milhões para 58 milhões de hectares. A expansão seria menor, porque a redução de subsídios impulsionaria a produção de biocombustível para regiões eficientes e com disponibilidade de terra, diz David Cleary, diretor da TNC.

A questão central na expansão das terras para biocombustíveis é a pecuária. Nos últimos 20 anos, o país registrou queda gradativa de pastagens para áreas destinadas ao plantio. Ao mesmo tempo, a concentração de cabeças de gado por hectare subiu. Se essas linhas continuarem, diz o estudo, os impactos ambientais serão menores.

“Teoricamente, a expansão do biocombustível nos pastos desmatados acomodaria toda a demanda futura de terra a um custo baixo em termos de conservação e biodiversidade”, conclui o estudo.

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