Ajuste agudo no setor alcooleiro.

Com a crise financeira internacional, o setor sucroalcooleiro vive seu primeiro grande choque desde o boom iniciado em 2004. A falta de crédito fez com que os projetos de expansão em todo o país empacassem de uma hora para outra. Algumas das maiores usinas em operação enfrentam dificuldades de caixa ou estão endividadas. Os novos tempos obrigaram os investidores nacionais e estrangeiros a tirarem definitivamente o pé do acelerador.

O grupo Naoum, um dos mais tradicionais do mercado, ingressou na semana passada com um pedido de recuperação judicial para suas três usinas. Motivo: “O cenário internacional, com aperto da liquidez, e a compressão do crédito aliados à queda nas cotações dos preços do açúcar e do etanol”, justificou o comunicado oficial. Em Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul – consideradas fronteiras agrícolas para o etanol – as plantações de cana-de-açúcar não avançam como o previsto, o que lança dúvidas sobre a produtividade da próxima safra.

A fase de ajustes é tão aguda que, assim como em outros setores da economia, os gigantes do etanol também buscam se associar. Há 380 usinas em atividade no país, sendo que as maiores estão concentradas nas mãos de 10 ou 12 grandes controladores. Ao longo de 2009, alertam os analistas, a tendência é que o número de fusões e incorporações aumente como nunca. “É um fenômeno natural. Muitas usinas precisam se modernizar, produzir energia, por exemplo. Se não fizeram nada não terão como pagar as contas”, explica Edson José Ustulin, presidente da Comissão Nacional da Cana-de-Açúcar da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Os custos de produção da cana estão nas alturas. Os insumos aumentaram, o frete subiu, a hora trabalhada do bóia fria foi reajustada. Só nos últimos 12 meses, plantar e moer ficou, em média, 25% mais caro. Como os vultosos aportes em programas ambientais, aplicados no aperfeiçoamento de mão-de-obra e na modernização das plantas industriais precisam ser quitados, as companhias fazem malabarismos contábeis. “Já tem usina vendendo antecipado o etanol que nem plantou para fazer dinheiro. É o desespero”, resume Ustulin. A próxima safra só começa a ser cultivada em março e abril de 2009.

Petróleo

Parte das expectativas dos produtores em virar esse jogo está ligada ao petróleo. Ironia do destino ou não, a commodity passou a ditar os rumos do etanol produzido no Brasil. Com os preços internacionais do barril em queda-livre, fabricar o combustível verde ficou mais oneroso. Nas contas dos usineiros, o etanol só é competitivo com o barril acima dos US$ 80. Na casa dos US$ 50, como ocorre atualmente, o produto fica praticamente inviável – o recorde alcançado em meados de julho deste ano foi de US$ 147,50. Em outras regiões produtoras de etanol ao redor do mundo, como Estados Unidos e União Européia, a influência do preço do petróleo é maior ainda. Isso porque as fortes políticas de subsídios praticadas por essas potências acabam tendo de ser intensificadas ou abandonadas.

No caso brasileiro, o câmbio valorizado é outro obstáculo à recuperação do setor. As usinas não revelam em que proporção, mas boa parte do crescimento acelerado dos últimos dois anos se deu a base de empréstimos em dólar. Essa fatura está sendo cobrada agora. “Não se sabe o quanto, mas há financiamentos em moeda estrangeira”, explica Ustulin. A preocupação das entidades que representam os produtores é tanta, que já há uma articulação em curso para cobrar do governo providências emergenciais, como a definição de regras para a criação de estoques públicos ou privados e normas de regulação capazes de preservar a competitividade do país.

Preços terão forte oscilação

Em meio a tantas indefinições que rondam o setor sucroalcooleiro, a próxima entressafra da cana-de-açúcar (período entre dezembro e abril) ficará marcada por fortes oscilações de preços ao consumidor final. Por causa da expectativa de uma colheita menor, o combustível na usina tende a se valorizar. A intenção dos produtores é fazer de tudo para despachar o litro a R$ 1 (sem impostos).

Atualmente, o preço médio está longe desse patamar. O indicador mensal do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada mostra que o litro do hidratado foi negociado a R$ 0,7264 e o do anidro, a R$ 0,8970, em novembro. Na comparação com 2007, ambos encareceram.

Para os donos de carros flex a recomendação é pesquisar os postos que comercializam o combustível mais barato. A partir deste mês, os motoristas do Distrito Federal já deverão sentir pequenas alterações nas bombas. O movimento de alta, no entanto, deverá se acentuar somente em fevereiro. (LP)

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