Agroenergia pode fortalecer o sistema de produção agrícola gaúcho

A importância do sistema produtivo com foco também na produção de biocombustíveis deverá alterar e alavancar o potencial das pequenas unidades rurais gaúchas, fortalecendo ainda mais a produção de alimentos. A afirmação foi feita hoje, 4 de novembro, durante a abertura do Simpósio Estadual de Agroenergia e 2ª Reunião Técnica Anual de Agroenergia-RS. O evento foi promovido pela Embrapa Clima Temperado, em parceria com a Emater/RS-Ascar, Fepagro e o Sistema Fiergs, terminando na quinta, 6 de novembro, na sede da entidade.

O vice-presidente do Centro das Indústrias do Rio Grande do Sul (Ciergs), Antônio Roso, destacou a importância de se buscar caminhos para o desenvolvimento. “A agroenergia é um dos segmentos que compõe a nova economia do Rio Grande do Sul, que reúne setores de ponta voltados para o futuro de nosso Estado e do Brasil”, conclui.

A previsão de déficit energético e de aumento da demanda por biocombustíveis, combinadas com a atual crise financeira, também pautou o discurso do diretor-executivo da Embrapa, José Geraldo Eugênio de Franz. Segundo ele, o fato da produção de grãos ter saltado de 78 milhões de toneladas para 143,9 milhões de toneladas, em 10 anos, salvou o país do caos e da inadimplência.

“O agronegócio tem sustentado a economia nacional. Nos próximos 10 anos temos o dever de atingir 300 milhões de toneladas de grãos, em prol da economia, do meio ambiente e do desenvolvimento social do Brasil. O mundo necessita que alguém produza alimentos”, afirmou. “O Estado precisa ocupar este espaço”, complementou o presidente da Emater/RS-Ascar, Mário Augusto Ribas do Nascimento.

Já o diretor-presidente da Fundação de Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), Benami Bacaltchuk, destacou a necessidade de maior atenção do Rio Grande do Sul em relação ao processamento da cana-de-açúcar para ampliar o uso na indústria. Segundo o secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, Artur Lorentz, grandes grupos estrangeiros estão investindo na energia térmica a partir do bagaço da cana. Também anunciou que está estruturando o Programa Estadual de Biogás, pioneiro no país, que pretende transformar dejetos de suínos em gás biometano.

ZONEAMENTO E RISCOS CLIMÁTICOS

Clima X Culturas Agroenergéticas no RS foi o tema da palestra de Jaime Maluf, pesquisador da Fepagro, que analisou o risco climático para diversas culturas, como cana, mandioca, batata doce e sorgo, destinadas à produção de etanol, e soja e girassol, consideradas alternativas de biocombustíveis. Entre os fatores, destaque para a deficiência hídrica, em especial no florescimento e enchimento de grãos, as geadas e temperaturas altas ou muito baixas, que podem atingir as lavouras no início da floração, e as chuvas torrenciais ou granizos que podem comprometer o ciclo da cultura. “O consumo de água é maior nas fases de enchimento de grãos e de florescimento”, alerta Maluf.

Para o pesquisador, os biocombustíveis podem ser considerados soluções temporárias, cujo tempo é medido a partir de uma análise de custo, benefício e eficiência energétifca. “O biocombustível não é problema pela necessidade futura de alimentos, pela alta densidade populacional, pela inclusão social e para a sustentabilidade do agronegócio, que fortalecerão o agronegócio”, observa, ao afirmar que “é mercado que não dá pra dispensar”.

A viabilidade da cana-de-açúcar no RS foi defendida por Maluf, que apresentou as favoráveis variáveis de temperatura na primavera e no verão, os períodos de insolação por dia (14h de sol/dia no RS e 12h/dia em SP), quantidade e distribuição de chuvas e o necessário período de frio. “O fundamental é planejar”, defende, ao citar a importância de reunir informações das instituições de pequisa, da extensão rural, das empresas e setores de governo e das universidades. “Em seguida, localizar culturas energéticas, planejar a produção, buscar incentivos de governo e as políticas agrícolas, que estão aumentando”, diz Maluf.

POLÍTICAS PÚBLICAS E AMBIENTAIS

O palestrante seguinte, Décio Luiz Gazzoni, da Embrapa Soja, citou as políticas públicas, a eficiência energética e os impactos ambientais como fatores que impactam a demanda de energia, ao lado do crescimento econômico, do aumento da renda per capita, do aumento demográfico e mais uma vez das mudanças climáticas. “Por tudo isso é que observo o incremento de investimentos em energias renováveis, tanto privados como estatais, em especial nos últimos quatro anos”, destaca.

De acordo com estimativas governamentais de políticas públicas, os Estados Unidos, até 2017, prevêem uma produção de 150 bilhões de litros de etanol, enquanto que no Brasil, a projeção para até 2020 é de uma produção de 40 milhões de litros. No caso do biodiesel, o Brasil pretende produzir 10 bilhões de litros até 2020, e os Estados Unidos, até 2017, prevê uma produção de 50 bilhões de litros de biodiesel.

“Por enquanto nossa área de produção de etanol é pequena, o que correponde a 1,6% da área cultivada com agronergia no país, mas vai crescer”, afirma Gazzoni, ao defender a definição das matérias-primas mais importantes para serem produzidas e incentivadas, calculando densidade energética, balanço energético e custo de energia, que envolve análise de disponibilidade de terra, água e clima adequado. “O Brasil tem tudo isso e pode ser bem sucedido no negócio da agroenergia”, finaliza.

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