Açúcar ganha força nos desembolsos do BNDES

Era para ser um ano mediano, daqueles em que, com muito esforço, o desempenho empata com o do ano anterior. Mas a elevada – e prolongada – rentabilidade do açúcar, associada a facilidades no crédito para investimento, mudou o quadro e fez com que os desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao setor sucroalcooleiro superassem já em novembro o realizado em todo o ano de 2009. Foram liberados entre janeiro e 25 de novembro R$ 6,7 bilhões para as usinas do país, 4,6% mais do que os R$ 6,4 bilhões desembolsados em todo ano de 2009.

Até o fim de dezembro, os desembolsos devem passar de R$ 7 bilhões, diz Carlos Eduardo de Cavalcanti Siqueira, chefe do Departamento de Biocombustíveis do banco. Os empresários aproveitaram as condições diferenciadas da linha de crédito de bens de capital do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), explica o executivo. “O trâmite é mais simplificado e as taxas de juros mais atrativas, fixas em 5,5% ao ano”, completa. As linhas tradicionais do banco para investimento têm taxas de juros superiores, com TJLP, mais spread bancário.

Assim, mesmo sob o impacto da forte crise que assolou o setor até 2009, as usinas que tinham condições de maximizar a capacidade de produção de açúcar aproveitaram a oportunidade e buscaram recursos no BNDES. Do total de R$ 6,7 bilhões liberados pelo banco até agora, R$ 2,3 bilhões foram destinados a projetos para aumento da produção do adoçante. O montante é 43% maior do que os R$ 1,6 bilhão desembolsados em todo o ano passado para esse tipo de projeto.

Ainda há na carteira do banco de fomento outros projetos de açúcar aprovados que somam R$ 811 milhões em investimentos. Para investimentos no cultivo de cana, o BNDES liberou R$ 647 milhões, ante as R$ 619 milhões de 2009. (ver quadro)

Apesar do bom desempenho do ano, Siqueira não acredita que se trata de uma retomada de investimentos em novos projetos. O volume liberado para etanol, por exemplo, caiu 7,6%, de R$ 3,52 bilhões de 2009 para R$ 3,25 bilhões até 25 de novembro deste ano. “São demandas protocoladas ainda entre 2007 e 2008, sobretudo as de greenfields (usinas novas) do Centro-Oeste. Há ainda nesse grupo pequenas ampliações de plantas industriais já existentes”, diz Siqueira. Nessa categoria também estão inclusos os recursos da linha de estocagem de etanol, que até a semana passada, significavam desembolsos de R$ 364 milhões.

Por não acreditar que o bom desempenho dos desembolsos signifique um reaquecimento de projetos novos do setor sucroalcooleiro, Siqueira avalia que os desembolsos em 2011 não devem superar os deste ano. “Algum reaquecimento começará no segundo semestre de 2011”, afirma.

Isso porque, explica ele, os balanços financeiros das companhias do setor já estarão divulgados, com tendência de melhorar as análises de risco de crédito. “O setor está reprimido em termos de investimento há dois anos. Para abrir a porta, tem que haver cuidado, a retomada tem que ser seletiva”, diz.

A participação direta do banco, sem a intermediação de outros agentes financeiros, já diminuiu, sinal de aumento da confiabilidade do setor. Em 2009, o banco de fomento participou diretamente de 46,4% dos desembolsos às usinas, percentual que está em 34% neste ano.

Enquanto o açúcar brilhou em 2010 na liberação de recursos feita pela instituição, o destaque de 2011 devem ser os projetos de cogeração. Neste ano, eles ainda aparecem tímidos, com R$ 461 milhões liberados, 12% menos do que em 2009. Mas, já há aprovados e na mesa da diretoria do banco projetos de produção de energia com bagaço de cana que somam R$ 1,25 bilhão, mais do que o dobro do que estava aprovado em 2009. “Os projetos de cogeração refletem decisões do setor tomadas no pós-crise”, avalia.

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