A luz que vem da cana

O relógio de luz já gira ao contrário em pelo menos 12 usinas de açúcar e álcool do Estado de São Paulo. No fim do mês, são as concessionárias que recebem a conta da energia gerada pelo bagaço de cana. Elas pagam tarifas que variam de R$ 0,055 a R$ 0,10 por quilowatt/hora, conforme a duração do contrato, e repassam aos consumidores residenciais por R$ 0,12.

Com apenas 25% do bagaço de um hectare de cana é possível iluminar 14 casas por mês, durante a safra, de maio a novembro, exatamente no período de estiagem, quando os reservatórios das hidrelétricas estão mais baixos.

Um hectare de cana na região de Ribeirão Preto (SP) produz, em condições normais de clima, 90 toneladas, e gera um excedente de energia para a rede pública calculado em 3.600 kWh. Assim, uma tonelada de cana dá bagaço suficiente para colocar na rede 40 kWh. E cada morador de uma cidade como Ribeirão Preto (com todas as suas atividades domésticas, profissionais e de lazer) consome por ano, cerca de 2.300 kWh, segundo a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz).

As 131 usinas e destilarias paulistas já são auto-suficientes e usam bagaço de cana para produção da energia que consomem, livrando-se da dependência das hidrelétricas. Desse total, doze geram excedente, estimado para esta safra 2001/2002, em 85 megawatts, (equivalentes a uma energia total de 409 mil megawatts/hora, durante a safra). Esse volume é suficiente para abastecer cerca de 270 mil casas (consumo exclusivamente residencial de 250 kWh/mês/residência).

A CPFL, que tem contrato de compra de eletricidade excedente com nove usinas, espera elevar essa capacidade para 200 megawatts em 2005, estendendo os benefícios para 680 mil casas, pela mesma metodologia de cálculo, o que equivale a uma comunidade de 2,5 milhões de habitantes, durante os seis meses de safra.

Atualmente, produzem excedente de eletricidade a partir do bagaço de cana no Estado de São Paulo as usinas Vale do Rosário, de Morro Agudo, com 30 megawatts; São Francisco (0,3) e Santa Elisa (5), de Sertãozinho; Corona (2), de Guariba; Moema (10), de Orindiuva; Cresciumal (2), de Leme; Nardini (2), de Vista Alegre do Alto; São José-ZL, (8), de Macatuba; Barra Grande, (14), de Lençóis Paulista; Cerradinho (1), de Catanduva; Colombo, (1), de Ariranha, e Univalem (2), de Valparaíso.

Já existem em carteira, no BNDES, em fase de carta-consulta ou de enquadramento, oito pedidos de financiamento para projetos de co-geração. A CPFL informou ao BNDES que há em São Paulo 30 usinas interessadas em investir nessa área.

Mas há empresários, como Pedro Biagi Neto, da Usina da Pedra, que esperam definição melhor do governo para entrar no sistema de co-geração. Eles argumentam que até hoje, o bagaço de cana – nem o álcool combustível – está oficializado na matriz energética brasileira. Temem que, de uma hora para outra, as autoridades desistam da compra dessa eletricidade co-gerada por eles e os deixem na mão, com grandes investimentos em tecnologia para serem pagos. Inserida efetivamente na matriz energética, a biomassa da cana exigirá um compromisso do governo que, afinal, diz ser o grande interessado na co-geração.

Pedro de Camargo Neto, secretário do ministério da Agricultura, pediu esta semana à União da Agroindústria Canavieira (Unica), entidade que reúne as usinas de São Paulo, que prepare um projeto para incluir a biomassa da cana na matriz energética, na expectativa de que o governo se comprometa a contar com essa energia co-gerada a partir do bagaço.

A maior – A Usina Vale do Rosário, da cidade de Morro Agudo, é uma das fundadoras do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) e uma das pioneiras na co-geração de eletricidade a partir do bagaço de cana. Ela abastece a rede pública desde 1989. Hoje, é a maior co-geradora do País, com 30 megawats. E negocia junto ao BNDES financiamento para dobrar esse volume de co-geração em quatro anos, anuncia seu diretor Ricardo Brito Santos Pereira: “A meta, agora, é equipar a usina para disponibilizar mais vapor e gerar eletricidade exclusiva para alimentar a rede pública. Vamos entrar num processo de conservação de energia”, diz.

Ricardo Brito explica: “Hoje, uma usina eficiente, trabalhando, consome 500 quilos de vapor por tonelada de cana. É necessário que a otimização industrial faça essa usina consumir 280 a 300 quilos de vapor por tonelada.”

“Mas para que esse empreendimento se desenvolva com segurança, é preciso que se estimule o Proálcool. Quanto a maior a produção de cana, açúcar e álcool, maior a de bagaço para co-gerar essa eletricidade barata”, lembra o empresário Cícero Junqueira Franco, um dos fundadores do Proálcool e diretor-superintendente da Usina Vale do Rosário.

Pioneira – A primeira fatura de energia elétrica emitida em maio de 1987 pela iniciativa privada no Brasil foi da Usina São Francisco, da Organização Balbo, em Sertãozinho, na região de Ribeirão Preto. Ela começou a co-gerar eletricidade a partir do bagaço em 1987, para testar o sistema, efetivado na safra seguinte. Na época, serviu de modelo para a Eletrobrás oficializar o uso da biomassa como alternativa energética e regulamentar o fornecimento dos excedentes eletricidade.

Moendo cerca de um milhão de toneladas de cana, a São Francisco produz um excedente avaliado em 219 mil quilowatts hora mensalmente, capazes de suprir 870 residências por mês durante o período da safra. A usina estuda um contrato de financiamento com o BNDES para elevar sua geração de excedente de energia dos atuais 0,3 megawatt para 3 megawatts. A Usina Santo Antônio, outra empresa do grupo, começa a co-gerar, em 2002, 13 megawatts. O investimento total, negociado com o BNDES é de R$ 17 milhões.

Jairo Balbo, diretor industrial da usina, defende desde 1987 o investimento em co-geração, alertado pelos cálculos do próprio governo, que já previam um colapso no abastecimento de energia nos anos seguintes – e que acontece agora.

Jairo advertia que, sem energia, o País não conseguiria manter seu ritmo decrescimento nem oferecer vagas num mercado de trabalho assediado por 2,5 milhões de jovens que precisam trabalhar e chegam a esse mercado todo ano. “O governo previa um aumento anual de 4,5% no consumo de eletricidade, mas a elevação foi de 9,5% ao ano”, compara.

De acordo com Jairo, a construção de uma hidrelétrica de grande porte demora em média de oito a 12 anos e o custo dessa energia elétrica instalada é de US$ 2.000 o quilowatt . Uma central nuclear leva mais ou menos o mesmo tempo e custa de US$ 4 mil a US$ 5 mil, o quilowatt. Uma usina termelétrica, para fornecimento de gás, só fica pronta entre 18 meses e dois anos e sua energia custa cerca de US$ 800 a US$ 1.500, segundo dados do Conselho Mundial de Energia consultados pelo empresário. “Enquanto isso, o quilowatt de potência instalada gerado pelo bagaço de cana na forma de excedente de energia de co-geração custa em média só US$ 400, disponível em no máximo um ano”, conclui Jairo.

Potencial – Se as 131 usinas e destilarias do Estado de São Paulo gerarem 40 quilowatts hora de energia excedente por tonelada de cana, elas produzirão tanto quanto duas turbinas de Itaipu ou 1,5 gigawatt. São Paulo mói 240 milhões de cana por safra.

Uma tonelada de cana rende 240 quilos de bagaço. Essa tonelada tem potencial para gerar 70 quilowatts hora, dos quais 30 são usados na produção do açúcar e álcool (autoconsumo da usina) e 40 na forma de excedentes.

O bagaço da cana é queimado numa caldeira, que gera energia térmica em forma de vapor d água. Numa turbina, essa energia é transformada em mecânica e, no gerador, em energia elétrica. É a tecnologia da “co-geração”. Já existem tecnologias mais sofisticadas, de alta pressão, condensação e gaseificação, de custo elevado, que permitem utilização maior do bagaço para co-gerar a eletricidade.

Segundo o empresário Jairo Balbo, o emprego dessas novas tecnologias será possível quando a remuneração das usinas pelas concessionárias for de US$ 70 por megawatt/hora. “Esse é o valor mínimo exigido pelo Banco Mundial para financiar a co-geração a partir do bagaço e ampliar seus benefícios”, esclarece o engenheiro eletricista Arthur Padovani, consultor de co-geração desde o início do processo no Brasil. Por enquanto, as usinas que firmaram contrato com a CPFL recebem cerca US$ 40,00 por megawatt/hora.

Das usinas que geram excedente de energia no Estado, cinco estão na região de Ribeirão Preto. Juntas, elas alimentam a rede da CPFL com cerca de 40 megawatts – energia equivalente de 170 mil megawatts hora (MWh), suficiente para abastecer 113 mil residências durante a safra – seis meses.

Segundo Padovani, se em vez do bagaço, as usinas utilizarem o palhiço (palha e ponteiro) da cana cortada crua, o poder de geração de eletricidade dos canaviais será duas vezes maior. Essa realidade está se aproximando rapidamente, com a redução gradativa da queimada da palha da cana para a colheita e a mecanização do corte.

Enquanto um hectare de cana que rende 90 toneladas oferece, em média, 22 toneladas de bagaço, a mesma área fornece 25 toneladas de palhiço. O poder calorífico do bagaço é de 1.800 quilocalorias por quilo e o do palhiço, 2.900 quilocalorias, compara Padovani. Com 900 mil hectares de cana, a região de Ribeirão Preto, empregando o palhiço na geração, pode fornecer eletricidade para 6,36 milhões de residências (se todo o palhiço fosse usado exclusivamente na geração), com o consumo médio de cada residência avaliado pela CPFL em 250 quilowatts/hora por mês.

A utilização do palhiço, porém, dependerá das condições econômicas. Ainda não existem meios de enfardamento e transporte eficientes para levá-lo do campo à usina, após a colheita da cana. Deixado no solo, esse palhiço tem se mostrado muito útil na proteção da terra e como agente inibidor do crescimento de ervas daninhas, reduzindo a necessidade de aplicação de herbicidas.

Ganhos ambientais – Estudos da CPFL indicam que o uso da biomassa como alternativa energética reduz a emissão de resíduos no meio ambiente. O nível de poluição atmosférica devido à queima do bagaço é muito pequeno, se comparado a outros combustíveis, como óleo diesel e carvão. O bagaço possui pouca cinza (2,5%), enquanto o carvão tem de 30 a 50%. O enxofre do bagaço quase não existe, enquanto o SO2 e o SO3 do óleo combustível estão sempre presentes e em quantidade elevadas.

Por causa da umidade, a queima do bagaço é lenta, com baixa temperatura da chama. Quanto maior essa temperatura, maior a formação do óxido nitroso, que está entre os poluentes mais perigosos.

As pesquisas concluem que com o uso de caldeiras bem dimensionadas, chaminé de altura adequada e um sistema de extração de cinzas eficientes, “o problema da poluição praticamente inexiste”. E acrescenta que essa forma de co-geração “aumenta a oferta de energia elétrica sem necessidade de construção de hidrelétricas, evitando a inundação de grandes áreas e diminuindo os impactos sociais e no meio ambiente”.

Não são apenas usinas de açúcar que usam o bagaço. Ano passado, o Estado de São Paulo economizou cerca de US$ 45 milhões, deixando de importar o óleo combustível (BPF), derivado poluente de petróleo, substituído por 2,5 milhões de toneladas de bagaço de cana nas caldeiras das indústrias de sucos cítricos, de óleo vegetais, de produtos cerâmicos e retíficas de pneus, principalmente.

Moacyr Castro, através da Imagem Relações Públicas assessora várias usinas de açúcar e álcool na região de Ribeirão Preto

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