A flexível realidade – Editorial

As fábricas de automóveis estão fortemente a depender da produção de carros que utilizam, juntamente com a gasolina, o etanol. O carro flex é invenção brasileira que de um só golpe concilia os interesses do capital estrangeiro e os interesses brasileiros em fugir da soberania da gasolina.

O capital estrangeiro descobriu o nicho do etanol brasileiro, quer dizer, do biocombustível. O Brasil falou alto e decididamente na questão da ampliação da frota de automóveis que tanto queimam gasolina, quanto o etanol, indiferentemente. Hoje, quase ninguém pensa, aqui, em adquirir um carro movido só a gasolina, ou somente a álcool, pois, é geral a possibilidade implementada pelas fábricas de automóveis de montar veículos simultaneamente nas duas modalidades: eles saem das fábricas aptos a queimar o etanol, e também, ao mesmo tempo, a velha gasolina.

Quem não viu e não analisou os desdobramentos da inovação estava ou está cego. Nisto reside o nicho de que falamos no começo deste comentário. O automóvel flex – de flexível, adaptado – impediu que morresse o mercado dos puros carros a gasolina. O flex ajudou, por outro lado, a firmar-se o mercado de máquinas movidas a etanol, consolidando o novo mercado – pensa-se – de uma vez por todas. É de esperar que o mercado nacional sozinho não possa garantir às montadoras de automóveis o mercado na escala exigida pelo novo combustível, mas é de esperar que a exportação brasileira de carros flex venha a contornar as dificuldades que surjam no exterior. Também não se pode descartar a possibilidade da instalação de fábrica de carros flex, sobretudo nos países mais adiantados industrialmente da América latina, a exemplo do México, Chile e Argentina.

Alguns setores internacionais pensaram e estão fazendo de maneira diferente. É o caso dos empresários franceses. Dois anos atrás, o empresariado estrangeiro pensava adquirir terreno! s aqui e construir usinas de cana de açúcar para que produzissem etanol. Sobreveio a crise mundial e eles se retraíram. Com toda cautela do mundo, passaram a adquirir usinas já prontas, bastando-lhes apertar alguns botões para que começassem a produzir o novo combustível. Diz a crônica pertinente que esse tipo de investimento no produto acabado (a usina pronta em funcionamento) mostra que os fundamentos do setor são sólidos por muitos anos, ao menos os próximos anos. Mas, o capital externo não está vindo para o chamado green field, para os novos projetos, ficando no brown field, o campo marrom das unidades já construídas. Do ponto de vista da economia nacional, vir o capital externo para o green field significaria trazer benefícios de toda ordem que se espalhariam por outros elos da cadeia produtiva.

A crise econômica e financeira mundial não deixou. Estrangeiros especializaram-se em operação, em fazer fusões e fusões ao sabor das oportunidades. Conta-se que, do ano 2000 aos m! eados de 2009, consumaram-se 99 fusões e aquisições, destacando-se nisto os três últimos exercícios, quando as fusões chegaram a 45. Universo de 400 a 450 usinas no país é controlado por 140 a 160 grupos econômicos. Nisto, a participação estrangeira é calculada entre 15 e 20%, fato que não é dado como preocupante pelos estudiosos do assunto.

É preciso ver como se entrelaçam os interesses nacionais. As fábricas de automóveis estão fortemente a depender da produção de carros que utilizam, juntamente com a gasolina, o etanol. O carro flex é invenção brasileira que de um só golpe concilia os interesses do capital estrangeiro e os interesses brasileiros em fugir da soberania da gasolina. Ambos os combustíveis, o etanol e a gasolina, ao que tudo indica, estão “condenados” a conviver de par em par, benefício de todos.

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