A estratégia de um capitalista

JornalCana – Um dos destaques reconhecidos no seu método de gerir os negócios é quanto à liquidez e à segurança que o senhor tem nas operações do grupo. Quais são os segredos para se preservar ou obter essa liquidez?

Carlos Lyra – Capital e muito trabalho, aliados ao pensamento voltado para o futuro do país que, acredito, será uma das grandes potências mundiais neste século. Não tenho dúvida em afirmar que a globalização, onde prevalece a supremacia da competitividade como imperativo da nova ordem econômica mundial, nos encontrou preparados e fortalecidos em relação ao nosso conglomerado de empresas, devido à sinergia existente em nossa equipe de colaboradores que concentra esforços numa mesma direção e nas gestões múltiplas do Grupo. Todos cumprem suas tarefas ao mesmo tempo em que interagem na convergência das experiências adquiridas, os quais, afinal, são responsáveis pelo crescimento que tem marcado as atividades do Grupo.

Além disso, para ter liquidez você tem que respeitar o caixa, sempre. A geração de caixa é uma das coisas mais importantes em qualquer processo empresarial. Hoje em dia as coisas estão mudadas e como a inflação diminuiu, ter apenas dinheiro é relativo. Na realidade é preciso ter o máximo de produtividade e dinheiro no caixa.

JC – O que as unidades produtoras devem fazer para se capitalizarem?

Lyra – Avançar na implementação de modernas tecnologias, no campo e na indústria, objetivando o aumento da produtividade em seu todo e qualidade dos produtos, sem esquecer a valorização dos colaboradores, que concebemos tão essenciais quanto os fatores de produção.

JC – Vale a pena investir no processo produtivo em detrimento aos mercados financeiro ou de capitais?

Lyra – Hoje a aplicação do dinheiro do caixa não tem a mesma remuneração de tempos atrás, onde tivemos anos e anos de altos lucros financeiros. Já esse ano acho que quase não vai apresentar lucro. Acabaram os grandes lucros no mercado financeiro. O que dá lucro é a produtividade, como mais um ponto de eficiência numa moenda, a economia com a sinergia do pessoal e equipamentos entre o Nordeste e o Sudeste, já que temos usinas em Alagoas e no Triângulo Mineiro.

JC – A diferença entre os períodos de moagem destas duas regiões permite ao Grupo um maior aproveitamento dos equipamentos e de pessoal?

Lyra – Sim. Trata-se de uma verdadeira integração, que garante bons resultados, uma melhoria em termos de equipamentos e profissionais. Acho que tem que existir um sinergismo, porque cada região possui características próprias, mas que podem contribuir para o sucesso das demais unidades.

JC- O senhor fala bastante em sinergia, há alguma técnica especial para a administração dos recursos humanos nas empresas do grupo?

Lyra – O Grupo tem uma constante preocupação com o bem estar de seus colaboradores. Valorizar o ser humano e o seu trabalho é a meta principal. Tanto é que desenvolvem-se projetos sociais de assistência a toda a família. Quem trabalha no campo recebe o alimento no próprio local, na hora exata. Erradicou-se o trabalho infantil na lavoura canavieira, mantendo as crianças na escola, praticando esportes, alimentando-se de três refeições e mais lanches. Enfim, é um trabalho de ampla assistência, proporcionando uma melhor qualidade de vida a todos.

JC – Específicamente em relação à produção sucroalcooleira, há alguma regra geral para a rentabilidade?

Lyra – Nada de novo. Já é conhecido que não é a indústria que faz o açúcar, quem faz açúcar é o campo. E o custo no campo depende da distância direta da usina e das terras boas que tiver em torno dela. Então, carregar a cana a cem quilômetros é inviável economicamente. Quer dizer, você pode fazer ou querer fazer mas não vai ter lucro. Dependendo do preço pago pela cana, acredito que um limite de 40 quilômetros seja razoável. É por esse motivo que muitas usinas menores são economicamente mais equilibradas do que algumas que cresceram demais.

JC – Qual é o futuro da produção canavieira no Nordeste?

Lyra – O problema é que não temos mais áreas planas disponíveis para produzir cana mecanizada. E não adianta investir nas encostas de Pernambuco e Alagoas, que não oferecem condições econômicas de cultivo e transporte. Na era do computador e da avançada tecnologia, não se pode mais plantar cana com enxada. Por isso existe o avanço do setor canavieiro nas regiões Sudeste e Sul, que possuem terras mais férteis e planas. Em Alagoas, a produção atual está mais centralizada na região dos tabuleiros, onde encontra-se, por exemplo, a Usina Caeté. Foi o Grupo Carlos Lyra que introduziu a mecanização naquela região.

A única vantagem do Nordeste é a proximidade com o Porto e a própria Europa e EUA. No caso de Minas Gerais, como importador de açúcar e álcool, é um excelente negócio investir aqui.

JC – O Nordeste dispõe ainda das vantagens das cotas americanas?

Lyra – Temos pouca coisa, mas que dá uma certa vantagem para nos proteger socialmente.

JC – Existem investimentos em novas tecnologias na região nordeste?

Lyra – O Nordeste é rico em alternativas, principalmente porque acostumamos a produzir enfrentando a seca, que sempre foi um problema. Nesse caso, trabalhamos com a irrigação. Há também uma troca de tecnologia com o Centro/Sul.

JC- Como o senhor vê produtores do Centro/Sul venderem açúcar no Nordeste e agora o Nordeste vender álcool para o Centro/Sul?

Lyra – Acho uma coisa boa, porque não é interessante estocar o açúcar por cinco, seis meses, para vender em doze. Desta forma pode-se atender seus clientes durante o ano todo. No nosso caso, a tendência agora é suprir o mercado mineiro de açúcar, porque Minas ainda importa 50% de álcool e açúcar de outros estados. Nosso objetivo é suprir essa falta.

JC – Este então é o motivo da aquisição da Delta?

Lyra – Já sabia das potencialidades do Triângulo Mineiro, desde criança. Meu avô aqui esteve, para adquirir exemplares das raças Guzerá e Nelore e levar para suas fazendas em Alagoas. Comentava sempre sobre a fertilidade da terra, que era propícia para o cultivo da cana. E isso ficou em minha memória. Em 1994 construí a Usina Volta Grande, a 40 km de Uberaba, em Conceição das Alagoas. Engraçado é que esse município lembra minha mãe, que era Conceição, e Alagoas, a terra que adotei como minha e que meus ancestrais ajudaram a desenvolver. Sabia das potencialidades do vale do Rio Grande, da fertilidade da terra, e parti para o investimento. Primeiro construindo a Volta Grande, investindo em tecnologia, permitindo uma elevada produção e priorizando a qualidade dos produtos e, mais recentemente, com a aquisição da Usina Delta, em abril deste ano.

JC – E como foram as negociações?

Lyra – Primeiro tentei arrendar a Usina Junqueira, em Igarapava (SP). Não deu certo. Então parti para Minas, quando surge o proprietário da Delta oferecendo-a para venda. A negociação durou três meses. Deu certo. Agora é partir para muito trabalho, sendo que já demos início a um ambicioso plano de investimentos na aquisição de novas máquinas e equipamentos, e treinamento de pessoal.

Aliás, nosso propósito é produzir cinco milhões de toneladas de cana aqui em Minas Gerais e queremos chegar a cinco milhões também no Nordeste, mas para isto acontecer só adquirindo outra unidade produtora, porque a capacidade das nossas usinas de Alagoas já está nos limites, seja de área, parque industrial, não passando do que é agora: 3,5 milhões de toneladas.

JC – Como é o seu relacionamento com os outros empresários do setor?

Lyra – O melhor possível. Assim é em Alagoas e hoje em Minas Gerais e tudo farei para que essa aliança se torne cada vez mais forte e duradoura.

JC- Como foi sua passagem pela política como senador?

Lyra – Não tive militância político partidária. Entretanto, como não podia fugir à convocação das lideranças políticas de meu Estado, na composição do diretório da Arena/PDS, terminei sendo convocado para a suplência do Senador Arnon de Mello, que faleceu no início do mandato, tendo que assumir. Foi uma experiência gratificante. Convivi muito bem com todos os senadores e fiz a minha parte com dignidade, respeito e gratidão ao povo alagoano.

JC – O senhor acredita que o setor está bem representado politicamente?

Lyra – Poderia ser melhor representado porque particularmente o setor sustenta a geração de mais de um milhão empregos, principalmente na área rural, assegurando um piso salarial bastante acima do salário mínimo. Diria que o setor precisa de uma maior e mais combativa bancada no Congresso Nacional, à altura do que ele representa para a economia brasileira.

JC – E quanto a organização institucional do setor?

Lyra – Agora que houve um equilíbrio no mercado, os produtores devem ter consciência da importância da agroindústria canavieira. Somos importantes sob todos os aspectos e esta importância é que deve ser vendida, dentro da realidade. Nós produtores temos que entender que conversando é que se resolve. Por aí acontece a integração do Nordeste com o Centro/Sul, que é muito interessante.

Se o setor não estiver unido, podemos prever o que vai acontecer dentro de dois ou três anos. Se todos quiserem crescer demais, vamos ter outra crise de superprodução e não podemos esperar nenhuma atitude do governo para impedir isto.

JC – E qual o papel que caberia ao governo?

Lyra – Os produtores não podem esperar muito do governo, pois de certa forma já temos a natureza e a capacidade de resolver nossos próprios problemas. É só saber conduzir bem os negócios e deixar que o governo cuide de sua parte: a educação, saúde e a segurança da população. Contudo, o governo tem que saber qual é a grandeza do setor sucroalcooleiro para o país. O Brasil é a Arábia Saudita do açúcar e como tal tem que ser tratado. Como o processo de açúcar e álcool é totalmente integrado, cabe ao governo criar uma agência que regulamente os parâmetros mínimos para a estabilidade dos mercados internos e abertura de mercados externos.

JC- Quais as perspectivas do senhor para o setor?

Lyra – Passada a fase crítica vivida pelo setor nos últimos anos, acredito que as perspectivas são positivas. Para o álcool, especialmente, o futuro seria melhor ainda, desde que o governo mantenha o interesse em despoluir a atmosfera do planeta, garantindo melhor qualidade de vida para a população.

JC – Na sua opinião, qual é o futuro do carro a álcool?

Lyra – Como dissemos, tudo vai depender da sensibilidade do governo em relação ao combustível limpo e à preservação da tecnologia desenvolvida pioneiramente pelo Brasil. Mas estou convencido de que a tendência dos carros será o uso de bi-combustível. Como temos percebido pelos avanços tecnológicos, os consumidores passarão a usar veículos que, regulados por chips, permitirão variadas misturas de combustíveis.

JC – A sucessão é uma dificuldade comum às empresas dos setor por serem em sua maioria familiares. Como esta questão está sendo conduzida no Grupo Carlos Lyra?

Lyra – Tenho apenas dois herdeiros e até o momento não vejo nenhum problema. Deixando a modéstia a parte, fico orgulhoso de que, juntamente com meu filho Robert Lyra e meu genro Fernando Farias, somos hoje os maiores produtores de açúcar e álcool do Nordeste e de Minas Gerais. Por isso sempre trabalhamos para ter qualidade e lucro, que são a base de todo o sistema capitalista.

X