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É só começar a soprar uns ventos de bonança, como se vê neste momento, que o setor corre o risco de cometer um erro recorrente. Deixa a vida o levar, na boa maré do momento, sem dar a mínima importância à necessidade sempre presente de efetivar mudanças que aprofundem suas raízes contra futuras intempéries do mercado. É o perigo da melhora. Nestes enganosos momentos, o bom torna-se inimigo do excelente, quando o setor melhora seu estado de saúde e, crendo estar em pleno vigor, esquece que ainda está usando gaze e ataduras, recuperando-se de dificuldades recentes, e abandona a lição de casa. Deixa de ser pragmático e de se manter firme no desafio de fazer, ou pressionar as autoridades competentes a fazer as mudanças estruturais necessárias, como criação de estoques de passagem, isonomia tributária entre estados e melhoria da infraestrutura logística, apenas para citar três exemplos. É inegável que o setor esteja passando por um tempo razoavelmente bom e que a tendência é que este ciclo positivo perdure até a próxima safra ou mais. Entretanto, não podemos deixar que estas melhoras afastem-nos de ser pragmáticos. Já perdemos uma janela de oportunidades para mudança no final do ano passado e nos três primeiros meses deste ano, quando a campanha política ainda não havia começado. Aquele era o momento de incluir o setor e seus produtos, especialmente o etanol e a bioeletricidade, de forma clara na matriz energética brasileira. Mas a janela já se fechou. Ok, alguém sempre poderá nos lembrar que está tudo bem, que o setor está avançando... sim, essa é uma parte da verdade. Ainda bem que alguns interessados e abnegados, como José Coral, presidente da Coplacana, surgem em momentos como esse, buscando o cumprimento de toda a verdade. Ele defende a necessidade urgente de se criar um estoque de passagem de pelo menos 5 bilhões de litros de etanol, a fim de equilibrar o mercado e superar a crise de preços que atrapalha o desenvolvimento do etanol. Outros corais precisam surgir desta maré. Homens de visão, que não se deixam levar pela ilusão da melhora atual passageira, mas que não desistem de aprofundar os alicerces do setor, quer seja ou não tempo oportuno. Ao ficar alheio a estas demandas, o setor e o Brasil perdem recursos que poderiam leválo a ocupar seu devido espaço no cenário internacional. Enquanto fica à mercê da volatilidade dos preços, que brincam de gangorra por falta de instrumentos reguladores efetivos, somas expressivas de dinheiro dos produtores vazam pelo caminho. Temos um exemplo real quando o preço do litro do etanol na bomba permanece a maior parte do tempo dez centavos abaixo do valor que já o tornaria economicamente interessante ao consumidor! Na verdade, ao final, todos perdem: a usina, os colaboradores, as entidades, o fornecedor de cana, o fornecedor de tecnologia... enfim, todos na cadeia produtiva. E então? Vale a pena continuarmos a pensar que "tá ruim, mas tá bão?"

Josias Messias josias@procana.com.br

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